
Onde fica Abuna Yemata Guh, a igreja mais inacessível do mundo
Não é apenas uma igreja escavada na rocha de beleza impressionante: é um daqueles lugares que põem à prova as pernas, a mente e até a forma como se olha para a fé e para a paisagem. Trata-se de Abuna Yemata Guh, na Etiópia. Para lá chegar é preciso escalar literalmente a rocha, caminhar por cornijas estreitas e enfrentar um percurso que exige atenção constante e sangue-frio.
Depois, quase de forma inesperada, surge um pequeno santuário escavado na parede rochosa, enriquecido por frescos antigos que narram séculos de devoção. Uma experiência que permanece na memória não apenas pela adrenalina da subida, mas também pelo silêncio suspenso e pela profunda espiritualidade que envolve quem atravessa a sua entrada.
Onde fica Abuna Yemata Guh e por que é tão famosa
A igreja de Abuna Yemata Guh situa-se no coração do maciço de Gheralta, no norte da Etiópia, na região do Tigray. Está escavada num pináculo de arenito pertencente às formações Enticho e Adigrat Sandstones e encontra-se a cerca de 2.580 metros de altitude, ou seja, 200 a 250 metros acima da planície circundante. Em dias limpos, a vista estende-se sobre um vasto mar de relevos, desfiladeiros e planaltos que revelam o isolamento e a força desta paisagem.
A localização é tão impressionante que, vista a partir de baixo, custa a acreditar que naquele recorte abrupto da rocha exista uma igreja decorada com frescos, ainda hoje frequentada por sacerdotes e fiéis. O templo está praticamente camuflado na parede do penhasco, e apenas quem conhece o percurso consegue identificar o acesso, discretamente escondido na face do pináculo.
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A projeção internacional deve-se sobretudo a reportagens, documentários de viagem e fotografias que mostraram ao mundo o equilíbrio quase irreal entre o abismo, os fiéis descalços a percorrer cornijas estreitas e os frescos preservados na pequena nave escavada na rocha.
Abuna Yemata Guh tornou-se conhecida a nível global por vários motivos:
- A localização praticamente inacessível, que exige uma subida exposta, com troços de escalada sem proteção típica de equipamentos alpinos;
- A tradição que a liga aos Nove Santos e ao século VI d.C., tornando este pináculo um antigo lugar de eremitismo e contemplação;
- Os frescos interiores, dos mais bem conservados do Tigray, que revestem abóbadas e paredes com figuras de apóstolos e santos;
- A intensidade emocional da experiência: para alcançar um local de culto ainda ativo, onde continuam a realizar-se ritos e orações, caminha-se literalmente “suspenso sobre o vazio”.
A história de Abuna Yemata Guh e a lenda dos Nove Santos
A história cruza-se com uma das tradições mais fascinantes do cristianismo etíope: a dos Nove Santos. Segundo a memória local, a igreja terá sido escavada no século VI e dedicada a Abuna Yemata, um dos nove monges missionários provenientes de Roma, Constantinopla e da região siríaca que chegaram à Etiópia entre o final do século V e o início do século VI, com o objetivo de reforçar e difundir o cristianismo.
Estes santos são considerados fundadores da tradição monástica etíope. A escolha de se retirarem para pináculos isolados como este está ligada a um ideal de ascese radical: viver num lugar remoto, longe das distrações do mundo, em contacto direto com Deus e protegido das convulsões políticas e militares que marcaram o Corno de África ao longo dos séculos.

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Os interiores da igreja Abuna Yemata Guh
Abuna Yemata Guh é um exemplo extraordinário de igreja rupestre maioritariamente monolítica: não foi construída pedra sobre pedra, mas escavada num único bloco de arenito. A sua estrutura interna segue o esquema típico de muitas igrejas escavadas na região de Gheralta, embora apresente algumas particularidades.
Tudo foi talhado diretamente na rocha arenítica, sem acréscimos murários significativos, exceto pequenos elementos funcionais ou de proteção introduzidos ao longo do tempo.
A planta é inteiramente escavada na rocha, com paredes, colunas e pilares modelados diretamente no arenito. Estes elementos funcionam simultaneamente como estruturas arquitetónicas e como superfícies para pintura.
Destaca-se uma cúpula central, também escavada por subtração de material, decorada com motivos cristãos: reconhecem-se frequentemente apóstolos, figuras angélicas e padrões geométricos que enquadram a cena principal. Há nichos e arcos talhados na rocha, por vezes utilizados para guardar objetos litúrgicos ou para acolher ícones.
As superfícies rochosas conservam os vestígios das técnicas tradicionais de escavação: pequenas incisões e marcas regulares que testemunham um trabalho longo, paciente e totalmente manual.
Frescos, ícones e língua
O verdadeiro tesouro de Abuna Yemata Guh, para além da sua localização vertiginosa, são os frescos, surpreendentemente bem conservados graças ao clima seco do Tigray e à proteção natural proporcionada pela própria gruta.
- Nas cúpulas e nas paredes destacam-se as representações dos Doze Apóstolos, dispostos em sequência e identificáveis pelos seus atributos iconográficos: frequentemente seguram livros, rolos ou cruzes, sublinhando o seu papel de anunciadores do Evangelho.
- Não faltam figuras bíblicas como Moisés, Paulo, Pedro, Tomé e outros santos venerados na tradição etíope. Muitas personagens são representadas de frente, com olhos grandes e traços estilizados, segundo o estilo característico da iconografia cristã oriental.
- Particularmente relevantes são as cenas e figuras dedicadas aos Nove Santos e à tradição monástica etíope. Estes ciclos pictóricos não são meramente decorativos: narram, em imagens, a própria história da evangelização da região.
- Existem ainda ícones móveis, muitas vezes sob a forma de dípticos e trípticos (painéis com duas ou três abas), utilizados no passado e ainda hoje na liturgia e na devoção privada.
- As paredes incluem inscrições na antiga língua litúrgica etíope, que continua a ser usada na Igreja Ortodoxa Etíope.

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Como chegar a Abuna Yemata Guh e qual é o ponto de partida
Chegar à Abuna Yemata Guh implica combinar deslocações por estrada com um verdadeiro trekking de montanha. O primeiro passo é alcançar a região do Tigray e, em particular, a área do maciço de Gheralta. A partir daí, utilizam-se estradas secundárias, parcialmente asfaltadas e parcialmente em terra batida, que atravessam aldeias situadas na base dos pináculos rochosos.
O percurso organiza-se, em regra, da seguinte forma:
- Chegada a cidades como Mekelle ou Hawzen, que funcionam como base logística para as excursões às igrejas rupestres de Gheralta;
- Transferência de carro ou veículo 4×4 até às aldeias mais próximas do pináculo onde se encontra a igreja. As estradas podem ser irregulares, com troços de terra e piso degradado, sobretudo na época das chuvas;
- Encontro com guias locais, obrigatórios ou, pelo menos, fortemente recomendados e, se necessário, com acompanhantes ou carregadores.
A partir das aldeias ou dos pequenos parques improvisados junto à base das formações rochosas, inicia-se o percurso pedestre: primeiro um trilho em subida, depois os primeiros troços de rocha e, finalmente, as passagens mais expostas, que exigem equilíbrio, concentração e controlo emocional.

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Quanto tempo é necessário para chegar a Abuna Yemata Guh?
O tempo necessário para alcançar Abuna Yemata Guh depende de vários fatores: condições da estrada, forma física, experiência em caminhadas de montanha e familiaridade com percursos expostos.
Convém considerar também o tempo de regresso e eventuais pausas, já que o percurso exige atenção constante e não é aconselhável apressar a descida.
Ainda assim, é possível indicar referências úteis para planear a visita.
- Deslocação por estrada: a viagem desde Mekelle até às aldeias que servem de ponto de partida para o trilho dura, em média, entre 1 e 3 horas, consoante o percurso escolhido, as paragens e o estado das vias.
- Subida a pé: desde o início do trilho até à igreja, o tempo de ascensão varia normalmente entre 45 e 90 minutos, dependendo do ritmo e das condições do grupo.