Uma ampliação em Londres prova que menos materiais pode significar mais
A ampliação de moradias unifamiliares em Londres tornou-se um dos campos de experimentação mais férteis da arquitetura residencial contemporânea. Como temos visto em vários exemplos neste portal, estas intervenções aproveitam os logradouros e quintais interiores das casas para criar novos espaços habitáveis.
Uma das principais razões para esta tendência de ampliar a casa tem que ver com as normas e a proteção das casas históricas. Crescer para dentro, para cima ou em direção ao quintal acaba muitas vezes por ser a única alternativa a mudar de casa.
Repensando una casa eduardiana
No bairro de Ealing, a oeste de Londres, o atelier local Atelier Baulier levou a cabo a renovação e ampliação de uma casa eduardiana que tinha tanto limitações de espaço como um fraco desempenho ambiental. O projeto, baptizado de Twin Pitches, foi encomendado por uma família de quatro pessoas que pretendia transformar a casa no seu “lar para a vida toda”, adaptado às suas necessidades presentes e futuras.
Antes de acrescentar novos espaços, o atelier debruçou-se sobre uma intervenção profunda na casa já existente. A estrutura foi parcialmente desmontada e reisolada, com o objetivo de melhorar o seu comportamento térmico e reduzir o consumo energético. A partir daí, a abordagem passou por substituir apenas o estritamente necessário e deixar à vista muitos dos materiais e camadas construtivas que costumam ficar escondidas.
“Queríamos estabelecer um novo padrão em matéria de materiais naturais e sustentabilidade para esta remodelação. Não se trata apenas daquilo que se vê, mas também do que está debaixo do chão e escondido por trás dos acabamentos”, explica o atelier. Esta filosofia traduziu-se numa revisão crítica de cada decisão construtiva, das fundações aos acabamentos finais.
Um dos gestos mais significativos foi o uso de estacas aparafusadas em vez de fundações em betão, reduzindo assim a pegada de carbono da obra. No interior, o reboco de cal foi usado como camada estanque e acabamento final, sem qualquer pintura, enquanto as tábuas estruturais do telhado passaram a ser o próprio teto à vista.
Segundo os arquitetos, “a placa do teto da ampliação é também o acabamento do tecto, o reboco de cal interior é a camada estanque e fica por pintar, porque assim resulta muito bem. Trata-se de usar os materiais certos com sobriedade e honestidade”.
Diálogo entre o antigo e o novo
Para além da intervenção na casa original, o projeto incluiu a ampliação do sótão para criar um quarto adicional e uma nova extensão nas traseiras de 22,5 metros quadrados, que acolhe a cozinha e uma marquise envidraçada. Esta ampliação reconhece-se facilmente do exterior pela sua cobertura em duas águas em forma de dentes de serra, que dá nome ao projeto e confere uma identidade clara, sem competir com a casa eduardiana já existente.
A estrutura de madeira desta cobertura ficou à vista no interior e foi tratada com óleo de linhaça. Na nova cozinha, estes tetos em contraplacado dialogam com as paredes de tijolo pintadas de branco da casa original. O conjunto fica completo com armários e bancadas em tons de rosa pálido, superfícies em aço inoxidável e um painel em terrazo que acrescenta textura e variações de tom.
A utilização da cor torna-se outro fio condutor do projeto. Uma parede divisória verde-escura e uma estante remetem para uma lareira original revestida a azulejo, que foi mudada de um quarto para a sala e está agora emoldurada por um contorno amarelo. Esta mesma cor surge na porta de entrada, nas lareiras e na escadaria central da casa, iluminada por cima.
“Os clientes alinharam logo na nossa combinação de cores arrojada, e a cor da porta de entrada já tinha sido discutida no nosso primeiro briefing”, conta a arquiteta. Esse amarelo estendeu-se à escada como uma piscadela de olho à tradição arquitetónica de John Soane, dando carácter e continuidade visual ao espaço.
No sótão, o teto alto revestido a contraplacado tingido foi resolvido sem recorrer a uma estrutura em aço, material com elevada pegada de carbono. Em vez disso, uma grande coluna de madeira ocupa o centro do espaço, assumindo em simultâneo uma função estrutural e expressiva.