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08 Jun

Curiosidades sobre Veneza: os segredos escondidos da cidade dos canais

Quando pensamos em Veneza, em Itália, é inevitável imaginar as gôndolas a deslizarem pelos canais, os palácios históricos refletidos na água e a majestosa Praça de São Marcos, um dos locais mais emblemáticos da Itália.

Contudo, por detrás da imagem romântica desta cidade da região de Veneto, que só em 2025 conquistou cerca de 25 a 30 milhões de visitantes, esconde-se uma cidade muito mais complexa e fascinante. Neste artigo vamos explicar a sua história repleta de curiosidades que te vão levar numa viagem no tempo.  

Como funcionam as ruas e os bairros de Veneza?

detalhes de um edifício em Veneza

idealista/news

Comecemos com a característica que torna Veneza única no mundo. Quem a visita pela primeira vez rapidamente percebe que a cidade não segue as regras habituais da orientação urbana.

Em vez de bairros convencionais, Veneza divide-se em seis zonas históricas conhecidas como sestieri: San Marco, Castello, Cannaregio, Dorsoduro, San Polo e Santa Croce. O sistema de numeração dos edifícios também é bastante peculiar. Em muitos casos, os números não seguem uma ordem rua a rua, mas abrangem todo o bairro, o que explica porque existem moradas com números superiores a seis mil.

As próprias ruas possuem designações específicas. As mais comuns são as “calli”, enquanto os percursos junto aos canais recebem o nome de “fondamenta”. Existem ainda as “rughe”, historicamente associadas a atividades comerciais, e as “salizade”, que se destacavam por serem das poucas vias pavimentadas durante a Idade Média. Entre os casos particulares destaca-se a famosa Calle Varisco, considerada uma das ruas mais estreitas de Veneza que, em alguns pontos, mede apenas 53 centímetros de largura.

Porque existe apenas uma praça em Veneza?

Praça de São Marcos

Vista para a Praça de São Marcos e o Palácio Ducal em Veneza

idealista/news

Muitos turistas ficam surpreendidos ao descobrir que Veneza possui oficialmente apenas uma praça. Trata-se da célebre Praça de São Marcos, o coração político, religioso e social da cidade durante séculos. Todos os outros espaços públicos semelhantes são designados por campi ou campielli.

A explicação encontra-se na história local. Antes da urbanização definitiva, muitos destes espaços eram verdadeiros campos relvados utilizados pela população para atividades agrícolas e comunitárias. A nomenclatura permaneceu até aos dias de hoje, tornando-se uma das particularidades linguísticas mais interessantes da cidade.

Qual é a origem da palavra “ciao”?

Poucas pessoas associam a palavra “ciao” à história de Veneza. Atualmente utilizada em todo o mundo como uma saudação informal, a expressão tem origem no dialeto veneziano. Deriva da palavra scciavo, que significa literalmente “escravo” ou “servo”.

Durante o período da República de Veneza, a expressão era utilizada como uma fórmula de cortesia equivalente a “sou seu servo”. Com o passar do tempo, o termo perdeu a conotação de submissão social, simplificou-se foneticamente e transformou-se no popular cumprimento que hoje identificamos à língua italiana.

Os carros podem circular em Veneza?

gondola em Veneza

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É uma das perguntas frequentes para quem pretende visitar Veneza e tem uma resposta simples. O centro histórico da cidade é totalmente livre de automóveis. Os veículos ficam obrigatoriamente estacionados na Piazzale Roma, o último ponto acessível por estrada através da Ponte della Libertà, que liga a cidade ao continente, e estende-se por 3 850 metros. A partir daí, a deslocação faz-se exclusivamente a pé ou por via aquática. 

Os famosos vaporetti desempenham o papel de autocarros públicos, percorrem os canais e conectam as várias ilhas da lagoa veneziana. As restrições vão ainda mais longe. Em muitas zonas do centro histórico, a circulação de bicicletas é proibida devido à reduzida largura das ruas e ao elevado fluxo de peões. Numa cidade onde algumas calli mal permitem a passagem de duas pessoas lado a lado, qualquer meio de transporte terrestre rapidamente se tornaria um obstáculo.

Esta singularidade faz de Veneza uma raridade no mundo moderno. Enquanto grande parte das cidades europeias foi-se adaptando aos automóveis ao longo do século XX, Veneza permaneceu praticamente imune a essa transformação.

Como funcionam as regras de navegação nos canais?

Embora a imagem romântica das gôndolas sugira uma navegação livre, os canais de Veneza são regulados por normas rigorosas. Existem limites de velocidade destinados a reduzir o chamado moto ondoso, a ondulação provocada pelas embarcações motorizadas que contribui para a erosão das fundações dos edifícios históricos.

Os transportes públicos e as embarcações de emergência têm sempre prioridade, e as gôndolas seguem regras próprias. Ao contrário dos barcos a motor, que circulam pela direita, as gôndolas navegam frequentemente pela esquerda, respeitando uma lógica adaptada aos canais estreitos da cidade. Em alguns troços, beneficiam ainda de permissões especiais.

Esta organização existe por razões práticas. O gondoleiro conduz a embarcação com um único remo lateral, utilizando também o peso do corpo e os pés para equilibrar e orientar a gôndola. Os restantes barcos devem cruzar-se pelo lado do remo, garantindo uma navegação segura num sistema praticamente inalterado há séculos.

O que significa o Leão de São Marcos?

O Leão de São Marcos de Vittore Carpaccio

O Leão de São Marcos de Vittore Carpaccio, que pode ser visto no Palácio Ducal em Veneza

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Entre os símbolos de Veneza, destaca-se o Leão de São Marcos. Presente em fachadas, monumentos e bandeiras, representa o evangelista Marcos, padroeiro da cidade. Surge frequentemente com a inscrição “Pax tibi Marce, evangelista meus”.

Para além do significado religioso, o leão simboliza o poder político, militar e espiritual da antiga República de Veneza. No Palácio Ducal, poderás encontrá-lo em pinturas e elementos decorativos de função propagandística, reforçando a autoridade do Estado veneziano.

A Ponte dos Suspiros não tem nada de romântico

Ponte dos Suspiros em Veneza

Unsplash

A Ponte dos Suspiros está longe da imagem romântica associada ao turismo. Construída no século XVII, ligava o Palácio Ducal às antigas prisões, isto é, servia como passagem entre o tribunal e as celas.

O nome refere-se ao último suspiro dos prisioneiros ao verem a cidade antes da reclusão. Trata-se, portanto, de um espaço ligado à justiça e ao controlo penal, e não ao imaginário amoroso popular que adquiriu nos últimos anos. 

A influência bizantina na Basílica de São Marcos

Basílica de São Marcos em Veneza

Detalhe da fachada da Basílica de São Marcos

idealista/news

A Basílica de São Marcos, construída a partir do século XI, reflete a forte influência bizantina em Veneza. Inspirada em Constantinopla, adota a planta em cruz grega e integra mármores, colunas e elementos decorativos trazidos do Oriente.

No interior, os cerca de 8.000 m² de mosaicos dourados, executados entre os séculos XI e XIII, seguem a tradição bizantina de uso intensivo de ouro e ausência de perspetiva realista. Após o saque de três dias em Constantinopla em 1204, muitos elementos foram incorporados, reforçando o caráter híbrido da basílica.

A lenda das colunas da Praça de São Marcos

Leão em Veneza

Detalhe da coluna do leão em Veneza

idealista/news

Junto à Praça de São Marcos erguem-se duas colunas monumentais que há séculos fazem parte do imaginário simbólico da cidade. Este espaço foi, em determinados períodos da história veneziana, associado à chegada de comerciantes vindos do Oriente. 

Desde então, muitos venezianos acreditam que caminhar entre as duas colunas pode trazer azar. A origem desta crença está ligada ao facto da zona ter sido também utilizada para execuções públicas. Por essa razão, ainda hoje muitos habitantes preferem contornar as colunas, algo que também poderás fazer durante a tua viagem em Veneza

Como é que Veneza foi construída sobre a água?

Basilica dei Santi Giovanni e Paolo

Basilica dei Santi Giovanni e Paolo

idealista/news

A construção de Veneza remonta aos séculos V e VI, quando as populações do norte de Itália refugiaram-se nas ilhas da lagoa para escapar às invasões bárbaras. O grande desafio foi erguer os edifícios sobre um solo instável de lama, areia e sedimentos.

A solução passou por cravar milhares de estacas de madeira até camadas mais firmes, criando uma base sólida. Sobre esta estrutura aplicou-se pedra da Ístria, resistente à água salgada. Estima-se, por exemplo, que a Basílica de Santa Maria della Salute assente em mais de um milhão de estacas.

Mas as estacas de madeira não afundavam?

As estacas afundavam apenas até atingirem camadas mais firmes do solo, fazendo parte do método de construção. O peso dos edifícios era distribuído por milhares de estacas próximas entre si, garantindo estabilidade ao longo dos séculos. Como permanecem submersas em ambientes pobres em oxigénio, a madeira não se decompõe e vai sendo gradualmente mineralizada pelos minerais presentes na água e no solo, tornando-se mais densa e rígida.

Apesar da impressionante engenharia que permitiu a construção de Veneza sobre a água, e da durabilidade das suas fundações de madeira mineralizada, a cidade continua vulnerável a desafios muito atuais. A subida do nível do mar, provocada pelas alterações climáticas, somada ao lento afundamento natural do solo, mantém Veneza numa posição delicada, deixando o futuro nas mãos de soluções ainda mais ambiciosas e sustentáveis.

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