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27 Mai

A “casita” na vida e nas canções de Bad Bunny

No concerto de Bad Bunny em Lisboa, a meio do estádio da Luz, ligada à estrutura principal por uma passarela, estava uma pequena casa de madeira pintada, com telhado de zinco propositadamente envelhecido e janelas de persiana. A “casita” porto-riquenha – a casa dos avós de Benito, a casa de bairro, a casa que continua de pé em fotografias antigas – nasceu para a residência que o artista fez em Porto Rico no verão de 2025, em San Juan, e foi de tal forma central nessa experiência que acabou por ser transportada para a digressão mundial do cantor e compositor que revoluciou o reggaeton e o trap latino. Funciona como segundo palco a meio do concerto de Bad Bunny, com uma secção do público à volta que tem acesso privilegiado a esse momento mais íntimo do espectáculo esgotado meses antes.

A “casita” em Lisboa não estava ali por acaso. Estava ali porque, em Porto Rico, casas típicas como aquela estão a ser compradas em série por investidores estrangeiros que aproveitam isenções fiscais para se instalarem no arquipélago caribenho. Estão a ser convertidas em alojamento turístico. Estão a ser demolidas para dar lugar a empreendimentos que os residentes locais não podem pagar. E os porto-riquenhos que viveram nelas durante gerações estão a ser empurrados para fora dos seus próprios bairros. Esta é a mensagem que quer transmitir Bad Bunny ao mundo.

Bad Bunny Grammy

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O artista mais escutado no Spotify em 2025, e grande vencedor dos Grammy 2026, está há anos metaforicamente a falar de habitação, mesmo quando parece que está só a interpretar letras sobre festa, amor ou desilusão amorosa. A casa atravessa-lhe a discografia de ponta a ponta, e a casita no meio do estádio é a forma mais directa que encontrou de dizer: prestem atenção, sempre falei sobre tudo aquilo que isto significa. Atravessa o quarto, atravessa a mansão, atravessa a ilha. Atravessa o íntimo e o coletivo. É a casa como centro da vida. A sua e a de todos.

A casa íntima: o quarto como extensão do corpo

Antes de chegar à ilha, Bad Bunny passou anos a cantar sobre quartos. Os primeiros álbuns estão cheios de espaços fechados, camas, sofás, salas com as luzes apagadas. O espaço doméstico funciona aqui como uma membrana entre o sujeito e o mundo, e é dentro dessa membrana que tudo se passa. Em “La Difícil” (2020), do álbum YHLQMDLG, há uma ausência que se transforma em geografia, é só sobre uma mulher que já não está, a cama vazia, o cheiro que ficou, o cenário quotidiano que permanece igual enquanto um corpo desaparece. Aqui a casa é o espaço, o quarto torna-se uma extensão emocional do corpo. Perder a casa é perder estabilidade afetiva.

“Amorfoda” (2018) leva esta lógica ainda mais longe. A canção é mais crua, menos estilizada, e a casa não aparece como símbolo de nostalgia, mas como zona de exposição. É ali que o sujeito foi entregue, ali que ficou vulnerável, ali que se desfez. A intimidade doméstica revela, neste caso, uma fragilidade masculina que o reggaeton tradicional raramente mostra. A casa muda de lugar: deixa de ser palco de conquista para se tornar sítio de trauma emocional. 

A casa conquistada: arquitetura simbólica da ascensão

Quando passamos para o segundo eixo, a casa passa a ter outra função. Já não é onde se sofre, é o lugar que se conquista. E é aqui que entra a questão política de classe.

“Soy Peor” (2016) é tecnicamente uma canção sobre desilusão amorosa, mas no contexto do trap latino o discurso constrói também uma nova posição social. A independência emocional vem sempre acompanhada de outra coisa: a saída do bairro, a mudança de condições habitacionais, a alteração do espaço de pertença. A personagem dessa música afirma que está melhor sem a outra pessoa, mas o que está realmente a declarar é que está melhor, ponto final. Mais dinheiro, mais mobilidade, mais distância em relação ao ponto de partida.

A casa, aqui, é implícita: nova morada, nova classe, nova posição. Habitar melhor é tornar-se outro. A transformação pessoal coincide com a transformação espacial, e talvez seja por isso que a canção continua a funcionar tantos anos depois.

Bad Bunny

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“La Romana” (2018) já entra abertamente no imaginário do luxo. Mesmo quando a casa não é descrita ao pormenor, o universo construído inclui ostentação dos lugares para estar, viagens, mobilidade internacional, consumo, riqueza visível. No contexto do hip-hop e do trap, a casa grande simboliza algo que ultrapassa o design e a decoração: é a prova material de que a precariedade ficou para trás. A vitória sobre as condições de origem materializa-se em metros quadrados e objetos. A casa deixa de ser abrigo para acolher e torna-se troféu para expor. É uma arquitetura simbólica da ascensão social, e ouvi-la apenas como exibicionismo e opulência é perder metade do que ali se passa. Quando alguém que cresceu numa “casita” modesta de Porto Rico canta sobre mansões, está a desenhar publicamente o caminho que percorreu – desde o supermercado onde trabalhava, enquanto estudante universitário da licenciatura que não terminou, até ao estrelato mundial.

A casa ameaçada: o direito a permanecer

É aqui que a obra de Bad Bunny ganha outra densidade. Porque em determinado momento, sobretudo a partir de 2022, a casa deixa de ser uma questão privada para se tornar uma questão mais pública. O quarto que abria os primeiros álbuns transforma-se na ilha inteira. “El Apagón – Aquí Vive Gente” (2022) é, provavelmente, a canção que melhor materializa esta viragem. Falamos de Porto Rico como casa comum, uma afirmação de existência contra a gentrificação, contra a compra massiva de propriedades por estrangeiros que aproveitam os incentivos fiscais da Lei 22 e da Lei 60, contra a deslocação de residentes locais empurrados para fora dos seus próprios bairros pelo turismo predatório e pelo investimento especulativo.

A casa torna-se, neste caso, espaço de resistência e símbolo de soberania popular. Habitar é existir politicamente, e a ameaça à casa é ameaça à identidade coletiva. O videoclipe que acompanha a canção, com mais de dezoito minutos e construído como mini documentário, mostra explicitamente o que está em jogo: famílias a serem despejadas, prédios a serem comprados para alojamento local, comunidades inteiras a perderem o chão sob os pés. Há um paralelismo evidente com o que acontece em Lisboa, no Porto, no Algarve, em tantas zonas da Europa onde o custo elevado da habitação empurra residentes para a periferia. 

“Una Velita” (2023) acrescenta outra camada. Aqui a casa aparece ligada à memória do furacão Maria, que em 2017 destruiu boa parte das habitações da ilha e expôs uma desigualdade estrutural que já existia muito antes da catástrofe. As casas que caíram primeiro foram, evidentemente, as mais frágeis e mais pobres. Ou seja, a casa é o primeiro lugar onde a desigualdade se materializa.  “Estamos Bien” (2018) fecha este arco com uma proposta diferente. Após a destruição, a canção fala de reconstrução., a permanência teimosa na ilha, a recusa em emigrar, o gesto coletivo de voltar a levantar paredes onde tinha havido escombros. É a comunidade que decide ficar quando seria mais fácil partir.

Bad Bunny

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E é talvez por isso que a obra de Bad Bunny consegue mover multidões, encher estádios, funcionando simultaneamente como pop de consumo massivo e como documento político. Porque em todas as escalas, da cama ao território, a casa é sempre a mesma coisa: o lugar onde se forma quem somos.

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