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09 Jun

Mobiliário de luxo de empresa espanhola encanta reis e futebolistas

Entre as serras de Cuenca, em Espanha, resistem ainda dois pequenos núcleos onde o trabalho em vime não caiu totalmente no esquecimento: Mariana e Priego. Neste último, a tradição das cestas de vime quase desapareceu – contam‑se pelos dedos de uma mão os artesãos que ainda a mantêm viva.

Um deles é a Mariana Artesana, oficina familiar que transformou o vime e o ratã em mobiliário de luxo para uma clientela muito exigente: futebolistas como Modric ou Griezmann, toureiros como Enrique Ponce, a baronesa Thyssen e até o rei Mohammed VI já se sentaram, literalmente, nas suas criações, tanto para exterior como para interior.

O idealista/news visitou uma das naves desta pequena empresa dirigida por Eduardo Famesinte para perceber como nasce cada peça e como conseguem sobreviver num mercado em que o gigante asiático ocupa quase todo o terreno. Entre cestos, candeeiros (uma das apostas mais recentes), cadeiras e sofás de exterior, há ainda a surpresa: os restos de um paquiderme desmontado.

Em tempos, um cliente do Qatar encomendou um elefante totalmente feito em vime. A meio do processo, o comprador desapareceu, mas os artesãos decidiram concluí‑lo na mesma – o que faz da Mariana Artesana, tanto quanto se sabe, a única empresa em Espanha com um elefante em vime em tamanho real no seu catálogo informal.

A que se dedica a vossa empresa?

Sobretudo à produção de mobiliário para espaços interiores e exteriores, trabalhando materiais como vime, bambu, ratã e madeira. É uma empresa de várias gerações. Cada geração foi ajustando o negócio às exigências do seu tempo.

No nosso caso, apanhámos uma realidade totalmente diferente daquela que o meu pai ou o meu avô encontraram, e fomos adaptando: diversificámos muito mais o produto, diversificámos muito mais os materiais e fomos respondendo a situações como a perda de artesãos, o desaparecimento de parte do setor transformador e até a própria redução das plantações de vime.

Quantos artesãos de vime ainda existem?

Neste setor, na nossa província, somos muito poucos. Passou de ser uma atividade importantíssima para algo claramente em declínio.

Atualmente, em época baixa, a nossa equipa anda entre 12 e 14 trabalhadores. Nas fases de maior produção – quando o tempo melhora e aumenta a procura de mobiliário de exterior – chegamos às 40 ou 45 pessoas. Já tivemos entre 115 e 120 trabalhadores fixos, com contratos sem termo. Era um produto muito procurado.

A concorrência do mercado asiático foi‑nos enfraquecendo de tal maneira que havia peças com as quais simplesmente não conseguíamos competir em preço. Tivemos de nos adaptar a outro tipo de procura, a outro tipo de serviço.

Como é que se adaptaram?

Antes de mais, tivemos de nos adaptar ao preço. Foi preciso procurar peças que fossem mais simples de fabricar. Ao mesmo tempo, percebemos que tínhamos de oferecer aquilo que o produto asiático, de importação, não conseguia dar: melhor qualidade e um serviço verdadeiramente à medida.

Começámos a trabalhar mobiliário que o cliente pudesse personalizar não só na cor, mas também nos acabamentos e nas dimensões. Esse nicho – o do produto personalizado, feito com cuidado artesanal – foi aquilo que conseguimos conquistar e é, felizmente, o que hoje nos mantém de pé.

Mariana Artesana

idealista/news

Que tipo de mobiliário fazem?

Fazemos mobiliário de exterior e de interior. Na parte exterior, distinguimos entre móveis “de intempérie” e móveis de exterior “normais”: os primeiros estão preparados para aguentar praticamente qualquer condição climatérica, por mais adversa que seja. Depois temos o mobiliário de interior.

Dispomos também de uma secção de serralharia e de tapeçaria própria. Hoje, o nosso produto principal já não é o vime em si. Deixámos de ser produtores de vime: tal como o ratã, passámos a comprá‑lo já pronto a trabalhar.

O vime exige um processo longo, desde a plantação ao corte, descasque, cozedura e preparação. Tudo isso deixámos para trás porque se tornou um custo impossível de repercutir no preço final. O ratã é um produto asiático, proveniente do interior da cana de bambu, ao contrário do vime, é geralmente mais uniforme, o que melhora muito o resultado estético.

A nossa tradição em cestas de vime permitiu‑nos fazer a transição de uma matéria‑prima para outra com relativa facilidade. Aliás, o vime é muito mais “duro de roer” em termos de trabalho manual do que o próprio ratã.

Fala-se muitas vezes da concorrência do mercado asiático. Que obstáculos enfrenta uma PME artesanal como a vossa?

Uma cadeira produzida na Ásia e colocada à venda em Espanha pode encontrar‑se entre 50 e 80 euros, consoante a qualidade – e há, de facto, produtos de importação com boa qualidade. Ora, só fabricar a estrutura dessa cadeira, para depois a revestir, já me ultrapassaria esse custo em horas de trabalho.

Para fazer o aro em que estamos agora sentados seriam necessárias, no mínimo, quatro a seis horas de trabalho, a um custo médio de 12 a 13 euros por hora em custos laborais. Isso, por si só, já excederia largamente o preço do produto final vendido em Espanha depois de importado.

Se a isto somarmos o facto de eu importar diretamente o ratã, que chega carregado de direitos aduaneiros, enquanto o produto acabado entra sem praticamente qualquer tarifa, percebe‑se o problema: penaliza‑se a compra de matéria‑prima, não se percebe bem com que objetivo – talvez para desincentivar a produção local. Tudo isso torna a nossa posição competitiva muito mais difícil.

Apesar disso, ainda há quem aposte em nós. Um dos clientes que mais orgulho nos deu foi o rei de Marrocos, que adquiriu várias coleções de um dos nossos produtos estrela para vários dos seus palácios.

Mariana Artesana

idealista/news

Que outros clientes têm?

O passa‑palavra tem funcionado lindamente. Fomos trabalhando com a hotelaria, em ótimos restaurantes e hotéis, e também em casas particulares, para clientes de todo o tipo: desde futebolistas e toureiros a figuras conhecidas do grande público.

Muita gente vê nos nossos produtos algo que não encontra noutros lados, qualquer coisa que os torna únicos e diferentes. No fundo, são verdadeiras peças de artesanato.

Mariana Artesana

Mariana Artesanos

O que é que vos pedem mais?

Depende muito do cliente. Quem tem esplanadas e terraços de hotelaria encomenda, sobretudo, poltronas e cadeiras especiais, bem como conjuntos modulares e sofás de exterior. O nosso ponto forte são, sem dúvida, os sofás e cadeirões.

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