
Crianças e ecrãs: as dicas de uma psicóloga sobre saber o que fazer
O brilho azul dos ecrãs tornou‑se o novo pano de fundo da infância e juventude contemporânea – em casa, na escola e até nos momentos que antes eram território exclusivo da brincadeira ou do descanso.
À medida que a idade do primeiro smartphone desce e vários países avançam com restrições ao uso de telemóveis entre menores, o debate deixou de ser apenas doméstico para ganhar dimensão científica e política. Neste sentido, o idealista/news foi saber o que tem para dizer uma especialista em saúde mental e comportamental sobre o tema.
Para Marta Calado, psicóloga que trabalha a infância e adolescência, a discussão sobre a utilização de dispositivos digitais pelos mais pequenos tem sido muitas vezes redutora: “entre o alarmismo que demoniza a tecnologia e o entusiasmo acrítico que a legitima como inevitável e sempre benéfica”. Pelo meio, alerta, há uma questão central que não pode ser ignorada: a tecnologia “não é neutra” e está a moldar comportamentos, atenção e relações numa fase decisiva do desenvolvimento.
Países avançam com restrições ao uso de telemóveis
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Perante estas preocupações, vários países (França, Suécia, Brasil, Canadá, entre outros) têm vindo a adotar medidas para limitar o uso de telemóveis por crianças e adolescentes, sobretudo em contexto escolar.
Em alguns casos, foram implementadas proibições totais ou parciais da utilização de smartphones nas escolas, com o objetivo de reduzir distrações, melhorar o desempenho académico e promover a interação social presencial.
Estas decisões refletem uma tendência crescente de regulação do uso de tecnologia entre os mais jovens, reforçando a necessidade de equilíbrio também no ambiente doméstico.
Quais são os impactos do uso excessivo?
O uso prolongado de ecrãs pode ter efeitos em várias dimensões do desenvolvimento das crianças:
- Redução do tempo dedicado a atividades físicas;
- Alterações nos padrões de sono;
- Dificuldades de concentração;
- Menor interação social presencial.
Estes impactos tendem a ser mais evidentes quando o tempo de ecrã substitui outras atividades essenciais ao crescimento.
A especialista sublinha que “não é apenas o tempo de ecrã que importa, mas sobretudo o tipo de estímulo, a intensidade e a forma como substitui experiências essenciais ao crescimento saudável“.
Acrescenta ainda que “a exposição excessiva a estímulos digitais rápidos e altamente recompensadores está associada a dificuldades de atenção, menor tolerância à frustração e maior necessidade de gratificação imediata”.

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Há também benefícios?
Apesar dos riscos, o uso de tecnologia não é, por si só, negativo. Quando utilizado de forma adequada, pode contribuir para:
- Acesso a conteúdos educativos;
- Desenvolvimento de competências digitais;
- Estímulo à criatividade através de jogos e aplicações interativas.
A diferença está na forma como os ecrãs são integrados no dia a dia.
“A tecnologia também oferece oportunidades reais: acesso à informação, aprendizagem, criatividade e conexão”, refere Marta Calado. “O problema nunca foi a tecnologia em si, é a forma como está a ser usada, frequentemente sem mediação, sem critério e sem consciência.”
O papel da casa na gestão do tempo digital
A organização do espaço doméstico pode influenciar os hábitos digitais das crianças. Definir locais específicos para utilização de ecrãs, como a sala, pode facilitar a supervisão e evitar o uso excessivo em zonas como o quarto.
Criar ambientes que incentivem outras atividades, como leitura, jogos ou brincadeiras, contribui para diversificar o tempo das crianças.
Segundo a especialista, “a mediação parental, a definição de limites e a literacia digital são fatores críticos de proteção”.

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Estratégias para um uso equilibrado
Para promover uma relação saudável com a tecnologia, podem ser adotadas algumas medidas simples:
- Estabelecer limites diários de tempo de ecrã;
- Evitar o uso antes de dormir;
Priorizar conteúdos adequados à idade;
- Incentivar pausas regulares;
- Dar o exemplo enquanto adulto no uso de dispositivos.
A consistência nas regras é um fator determinante para a sua eficácia. Marta Calado defende que “a questão central não é “tirar ou dar ecrãs”, mas sim educar para o uso”. Isso implica “definir limites claros, mas também estar, acompanhar, conversar, questionar e ajudar a pensar”.
Teletrabalho e desafios adicionais

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Com o aumento do teletrabalho, muitas famílias enfrentam o desafio de gerir simultaneamente o uso de ecrãs por adultos e crianças. A proximidade constante aos dispositivos pode aumentar a exposição e dificultar a definição de limites.
Nestes casos, a criação de rotinas claras e momentos sem tecnologia pode ajudar a equilibrar as diferentes necessidades.
A especialista alerta que “crianças e adolescentes estão, muitas vezes, sozinhos num ambiente digital desenhado para captar atenção, prolongar consumo e influenciar comportamentos”.
Equilíbrio e bem-estar
A relação das crianças com os ecrãs depende, em grande medida, do contexto familiar e das práticas adotadas em casa. O objetivo não passa por eliminar a tecnologia, mas por garantir um uso consciente e equilibrado.
Num contexto em que vários países já avançam com restrições ao uso de telemóveis entre menores, a gestão do tempo de ecrã em casa torna-se ainda mais relevante para o bem-estar infantil e para a dinâmica familiar.
Como resume Marta Calado, “a tecnologia veio para ficar, mas o desenvolvimento saudável continua a depender do que sempre dependeu: tempo de qualidade, relações seguras e experiências reais”.