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12 Mar

Mário Zambujal: escritor dos lugares onde mora a “portugalidade”

A casa e os lugares raramente eram neutros para Mário Zambujal, jornalista, roteirista e escritor, que morreu esta quinta-feira, dia 12 de março, aos 90 anos. Nos seus romances e crónicas, com uma linguagem oral, cúmplice, terna, cheia de humor e ironia, os espaços são descritos como extensões da personalidade das personagens. Multifacetado e versátil, este alentejano – que passou pela televisão, rádio e jornais – viveu em cada sítio a fugir do cinzento e das convenções. Era o “bom malandro”, de estilo culto e desalinhado.

Em livros como a “Crónica dos Bons Malandros”, “Longe é Um Bom Lugar” ou “Uma Noite Não São Dias” Mário Zambujal transformou cafés, ruas da Baixa, vilas alentejanas e esconderijos improváveis em cenários vivos da sua obra. Entre o Alentejo natal, a capital boémia e o refúgio de escrita em Alcoutim, construiu uma literatura de tipos humanos inesquecíveis e uma portugalidade descontraída, que o tornou querido por várias gerações de leitores.

Páginas cheias de nostalgia, ternura e sarcasmo, em que Lisboa e o Alentejo aparecem como dois polos complementares: de um lado, a cidade boémia dos “bons malandros”, do outro, o interior de fala lenta e olhar atento, onde se guarda a “portugalidade” que o autor tanto gostava de retratar.

Ler os livros de Mário Zambujal é, muitas vezes, como entrar num café antigo ou numa casa cheia de gente: há uma mesa onde se contam histórias, cadeiras ocupadas por personagens maiores do que a vida, portas que dão para a rua e janelas abertas para a memória. É como atravessar a Baixa pombalina com um bando de assaltantes de coração mole, ou sentar-se num largo alentejano a ouvir, sem pressa, as crónicas de um país que se leva pouco a sério.

E essa “casa” do escritor e jornalista, em que as conversas enchem cada divisão, tem um mapa desenhado na porta: Amareleja, Beja, Lisboa, Alcoutim e Vila Viçosa. Foi entre estes lugares que Mário Zambujal nasceu, cresceu, se fez jornalista, escritor, cronista da vida portuguesa e morreu, uma semana depois de completar 90 anos. 

“Longe é um bom lugar” – mas, na escrita de Mário Zambujal, os bons lugares estão sempre cheios de gente, histórias e uma piscadela de olho à vida.

Amareleja, Moura: a casa onde tudo começou

Amareleja

Sigmaangelofdarkness, CC BY 3.0

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Mário Zambujal nasceu em 1936, na vila da Amareleja, concelho de Moura, em pleno Alentejo. A infância decorreu nesse território quente e plano, marcado por uma ruralidade de conversas longas, ritmos lentos e uma observação miúda da vida quotidiana. É dessa origem que o escritor herdou:

  • O tom pausado e observador da sua escrita;
  • O gosto pela oralidade e pelo diálogo, como se cada livro fosse uma conversa;
  • A ligação às tradições alentejanas, ao humor seco e à resistência feita de afetos.

A Amareleja – e, por extensão, o concelho de Moura – ficou como uma espécie de “terra-natal” da sua obra. Mesmo quando escrevia sobre Lisboa e os seus malandros urbanos, havia sempre, por baixo, esse olhar do rapaz do interior que observa o mundo com um misto de espanto, ironia e ternura.

Beja: a casa da memória regional

Beja

Digitalsignal, CC BY-SA 3.0

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Se Moura e a Amareleja representam o berço, Beja tornou-se o núcleo regional da vida pública e afetiva de Mário Zambujal.

Ao longo dos anos, o autor repetiu que “Beja não pode ficar para trás”, fazendo da cidade uma bandeira da descentralização cultural e da necessidade de levar livros, debates e eventos literários ao interior. Beja é, na sua geografia pessoal:

  • Um ponto de encontro entre o Alentejo rural e a modernidade;
  • Um símbolo da “alma alentejana”, que o autor procurava fixar em crónicas e intervenções públicas;
  • Um lugar onde a sua obra era regularmente celebrada, em apresentações, encontros e conversas com leitores.

As vozes que atravessam os seus livros – cheias de ironia, mas também de compreensão pela fragilidade humana – parecem muitas vezes nascer desta mistura de campo e cidade, tão presente no Alentejo contemporâneo.

Carreira profissional: Lisboa jornalista e literária

Lisboa

Freepik

Se o Alentejo lhe deu o ritmo e a voz, foi em Lisboa que Mário Zambujal se tornou conhecido do grande público. Na capital, aprimorou a sua carreira como jornalista e roteirista na televisão e na imprensa, nomeadamente na RTP e em vários jornais e revistas. A cidade serviu de palco para:

  • O contacto diário com histórias, tipos humanos, pequenas e grandes notícias;
  • O afinar de um humor urbano, atento à boémia, aos bastidores da vida cultural e às idiossincrasias lisboetas;
  • A transição para a literatura, com a publicação de obras que rapidamente conquistaram leitores.

Foi também em Lisboa que nasceram muitos dos cenários de “Crónica dos Bons Malandros”, o livro que consagrou o autor como mestre da comédia de costumes à portuguesa. Entre redações, estúdios de televisão, cafés e ruas da Baixa pombalina, a cidade fixou-se como um dos seus grandes “personagens secundários”: sempre presente, viva, cúmplice.

O esconderijo: Alcoutim e a antiga cavalariça

Alcoutim

Vitor Oliveira CC BY-SA 2.0

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Entre a agitação lisboeta e o carinho e o apego ao Alentejo, Mário Zambujal encontrou mais a sul do país um refúgio muito particular: a vila de Alcoutim, no extremo nordeste do Algarve, distrito de Faro, inserido numa zona serrana.

Foi ali que o escritor transformou uma antiga cavalariça em escritório de trabalho. Esse espaço, meio rústico, meio reinventado, tornou-se um verdadeiro esconderijo criativo:

  • Um lugar de silêncio e concentração, longe das pressas da capital;
  • Um cenário improvável, que espelha o espírito dos seus protagonistas – gente que transforma o quotidiano em aventura;
  • A “casa literária” de obras como “Uma Noite Não São Dias”.

Nessa antiga cavalariça, Mario Zambujal escrevia com o mesmo espírito com que os seus heróis planeiam golpes: à mesa, entre papéis, com humor e uma certa distância irónica em relação ao mundo.

A casa do escritor: Vila Viçosa e o Paço Ducal

Vila Viçosa

Vitor Oliveira CC BY-SA 2.0

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Nos últimos anos, a ligação de Mário Zambujal ao interior do país ganhou um novo eixo: Vila Viçosa e o Paço Ducal, sede da Fundação da Casa de Bragança.

O escritor foi colaborador ativo da coleção “Livros de Muitas Coisas”, apresentada em várias ocasiões no Paço Ducal. Essas sessões fizeram do palácio uma espécie de casa de celebração literária para Mario Zambujal.

O edifício, construído no século XVI e associado à última dinastia real portuguesa, oferecia ao cronista da “Portugalidade” um enquadramento ideal para refletir sobre identidade, memória e tempo.

“Num país pequeno, os grandes palácios e as pequenas casas contam, juntos, a mesma história.”
Livros de Muitas Coisas

Últimos anos e morte

Évora

Paolo Querci, CC BY-SA 3.0

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Nos últimos anos de vida, Mário Zambujal manteve-se ligado ao país através de apresentações, festivais e encontros que cruzavam Lisboa, o Alentejo e o sul. Continuou a ser presença regular em iniciativas culturais, como:

  • Sessões em Vila Viçosa;
  • Debates em Évora;
  • Participações em eventos de Mértola, como o Festival Islâmico.

Entre Lisboa, o “esconderijo” de Alcoutim e as viagens ao Alentejo, o escritor foi progressivamente abrandando o ritmo público, mas manteve-se como referência de humor, afeto e língua portuguesa.

Mário Zambujal morreu a 12 de março de 2026, aos 90 anos, deixando uma obra que atravessa gerações e geografias – dos bares lisboetas às praças brancas do interior.

As casas e cidades literárias de Mário Zambujal

Na obra de Mário Zambujal, as casas, cafés e cidades são muito mais do que cenários: são prolongamentos da identidade das personagens e espelhos de uma certa forma de ser português.

Lisboa em “Crónica dos Bons Malandros”

Em “Crónica dos Bons Malandros”, Lisboa é quase o “oitavo membro” do bando. A capital surge com uma mistura de boémia, malandragem e romantismo suburbano que fixa o espírito dos anos 70.

  • Lisboa noturna e boémia: bares, casas de fado e cafés são o verdadeiro “interior” da casa dos malandros. É nesses espaços que se planeiam golpes, se testam lealdades e se revelam fragilidades;
  • Baixa pombalina como labirinto: a Baixa funciona como um mapa emocional com ruas para observar (“fazer o boneco”), becos para fugir e esquinas onde a cidade parece conspirar com as personagens;
  • Contraste social: dos bairros populares às instituições de prestígio, como a Fundação Calouste Gulbenkian, a cidade mostra a clivagem entre uma elite protegida e e uma malandragem desenrascada, tratada com simpatia;
  • Cidade de tipos humanos: mais do que monumentos, a Lisboa de Mario Zambujal é feita de polícias que fecham os olhos, prostitutas de bom coração e empregados de mesa cúmplices;
  • Humor e leveza: ao contrário de muitos romances policiais, aqui o crime é palco de comédia de costumes.  Lisboa aparece como uma casa grande onde todos, mesmo os malandros, têm lugar à mesa.

O Alentejo profundo: Mina de São Domingos, Mértola e outros refúgios

Além de Moura e Beja, o Alentejo reaparece na vida e na imaginação de Mário Zambujal através de lugares como a Mina de São Domingos e Mértola.

  • Na Mina de São Domingos, a paisagem de ruínas industriais e a serenidade da Praia Fluvial da Tapada Grande funcionam como metáfora da passagem do tempo – um tema recorrente no seu olhar sobre o país;
  • Em Mértola, Zambujal encontrou o silêncio e o “vagar” alentejano que contrastam com a agitação de Lisboa, reforçando a autenticidade da linguagem e a importância das culturas que se misturam, celebradas em eventos como o Festival Islâmico de Mértola.

Outros pontos de ligação reforçam esta cartografia afetiva:

  • Monsaraz, vista como lugar de contemplação e símbolo do Alentejo “eterno”, com as suas casas caiadas e vista sobre o Alqueva;
  • Évora, centro cultural da região, onde o autor defendeu, em debates e encontros, a importância da língua portuguesa e do humor como forma de resistência.

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