
“Periferias” leva cinema a 33 aldeias entre o Alentejo e a Extremadura
Catorze edições depois de ter começado como uma iniciativa cidadã em duas vilas de fronteira, o Periferias chega agora a 33 localidades e já ultrapassou as cem mil pessoas alcançadas. Entre 7 e 15 de agosto de 2026, o festival cultural transfronteiriço volta a instalar telas em castelos, praças, estações de comboios e lagares de azeite, levando a sétima arte a aldeias da Península Ibérica que nunca tiveram uma sala de exibição. Este ano, a programação junta um novo filme de Pedro Almodóvar, uma sessão muito especial com a atriz Carmen Maura e um formato que já se tornou marca da casa: o grande ecrã montado do lado de Portugal, e as cadeiras para o público em Espanha.
O festival de verão nasceu em 2013, pela mão da Associação Cultural Periferias, em Portugal, e da Gato Pardo, em Espanha, com uma ideia simples na origem. Paula Duque, diretora do Periferias, explica ao idealista/news que tudo começou “da vontade de democratizar o acesso à cultura e de levar o cinema a territórios que tradicionalmente ficaram afastados dos grandes circuitos artísticos”. Para a equipa, viver numa aldeia ou numa vila pequena não deveria significar menos oportunidades de contacto com a criação contemporânea.
Periferias
Com o passar do tempo, o essencial mantém-se, mas a escala mudou por completo. “O que mudou foi a dimensão do projeto”, resume Paula Duque, que destaca o reforço da vocação transfronteiriça e a chegada a cidades como Cáceres, Portalegre ou Mérida. O Periferias tornou-se, nas palavras da diretora, “uma referência cultural para toda a região transfronteiriça entre o Alentejo e a Extremadura Espanhola“.
Um reconhecimento que ultrapassa o cinema
Esta edição do festival traz uma novidade institucional relevante: a integração do Periferias no programa Foro Expandido do Ministério da Cultura espanhol. Paula Duque sublinha o valor simbólico do gesto, mas também o prático. “Mais do que um selo de prestígio, significa o reforço da visibilidade do festival e do território onde se realiza”, afirma, acrescentando que este reconhecimento ajuda a “fortalecer redes de colaboração, atrair novos parceiros culturais e consolidar o papel do Periferias como um espaço de experimentação, diálogo e inovação cultural em contexto rural”.
Esta ligação institucional materializa-se, por exemplo, no IV Encontro da Rede de Festivais e Gestores Culturais do Tejo Internacional, que acontece a 8 de agosto no Centro de Inovação Turística do Tejo Internacional, em Porto Roque, na antiga alfândega. O encontro junta profissionais e agentes culturais de Portugal e Espanha para partilhar experiências e desenhar projetos conjuntos, antecipando também as linhas de debate do IX Fórum Cultura e Ruralidades, que se realiza no próximo outono, em Zafra.
Como se escolhem os lugares para cada filme
A seleção de filmes segue critérios que a mentora descreve com precisão: obras que conciliem “qualidade artística, relevância social e capacidade de gerar reflexão”, com atenção especial a temas como identidade, memória, território, diversidade cultural e sustentabilidade.
Além de ser a diretora artística e fundadora deste projeto, Paula Duque preside à rede de festivais de cinema da Extremadura (FESCINEX) e colabora ativamente com a TELA (Associação de Festivais de Cinema de Portugal), defendendo modelos estáveis de cooperação ibérica. É neste contexto que o Periferias procura também equilibrar realizadores consagrados com novas vozes do cinema independente, privilegiando trabalhos que dificilmente chegariam aos circuitos comerciais.

Periferias
Já a escolha dos espaços obedece a outra lógica, mais ligada à paisagem e ao património. Castelos, antigas estações ferroviárias, praças, ruínas arqueológicas e espaços naturais tornam-se, durante alguns dias, salas de cinema ao ar livre. Esta opção traz desafios técnicos evidentes, da adaptação das infraestruturas ao fornecimento de energia, passando pela dependência do tempo. Ainda assim, como sublinha a diretora, “esses desafios são amplamente compensados pela experiência única que o público vive ao assistir a um filme em cenários tão especiais”.
O futuro desta festa de verão com identidade própria
Se o cinema é o centro do Periferias, a experiência não se esgota nas sessões. Muitas noites terminam em festa, com destaque para os concertos dos Sabugueiros, banda de cumbia alentejana nascida em Marvão, e para a presença de outros músicos ao longo dos dias. Paula Duque resume a identidade do festival numa frase direta: este é “um festival com impacto social que transforma o território transfronteiriço em salas de cinema ao ar livre, levando uma programação cinematográfica relevante a aldeias sem salas de cinema e assegurando às populações rurais o acesso à cultura enquanto direito“.
Questionada sobre o futuro do evento, a responsável aponta para uma consolidação cuidadosa, sem perder o essencial. “O principal objetivo continua a ser consolidar a qualidade artística e o impacto territorial do festival”, refere Paula Duque, acrescentando a intenção de reforçar a presença em novas localidades, ampliar as atividades formativas e aprofundar as colaborações internacionais. Há também uma aposta clara nas comunidades locais, sobretudo nos jovens, com o Periferias a assumir-se, nas palavras da diretora, como “um laboratório cultural transfronteiriço” que ajuda a combater a ideia de que a inovação cultural pertence apenas aos grandes centros urbanos.

Periferias
As nossas escolhas neste festival
Para quem quer planear a visita, fica aqui um roteiro pelos momentos mais marcantes desta edição do Periferias:
- 7 de agosto, Castelo de Marvão: cerimónia de abertura com “18 Buracos para o Paraíso”, de João Nuno Pinto, retrato de uma família alentejana dividida entre a memória do território e a pressão da venda de uma propriedade. A noite continua com música a cargo do DJ Toni Ferrino.
- 9 de agosto, Fontanera: uma das sessões mais originais do festival. “Calle Málaga”, de Maryam Touzani, com Carmen Maura no papel principal, projeta-se com o ecrã montado em Portugal e as cadeiras do público em Espanha, a poucos metros de distância.
- 11 de agosto, Santo António das Areias: dia dedicado ao cinema português e à reflexão sobre o território, com “As Estações”, de Maureen Fazendeiro, e ainda “Vozes do Interior”, rodado no Alentejo em preto e branco.
- 13 de agosto, Castelo de Vide: antestreia de “Yellow Letters”, de Ilker Çatak, vencedor do Urso de Ouro em Berlim.
- 14 de agosto, Galegos: sessão no lagar museu António Picado, com “My Way, a História de uma Canção”, seguida de concerto de jazz com o Four on Jazz Quartet.
- 15 de agosto, Salorino: encerramento com “Natal Amargo”, o novo filme de Pedro Almodóvar, antes da cerimónia de entrega do Prémio Tejo Internacional.