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16 Jun

El Corte Inglés: shoppings rendem 95 milhões como ativos imobiliários

O El Corte Inglés encerrou o exercício com um lucro líquido de 628 milhões de euros, mais 22,8% do que no ano anterior, e receitas globais de 17.247 milhões de euros. No entanto, para além dos principais indicadores financeiros, a apresentação de resultados divulgada pelo grupo revela uma transformação silenciosa do seu modelo de negócio: os seus centros comerciais estão a deixar de ser apenas espaços de venda de moda e eletrónica para se afirmarem como plataformas urbanas de serviços, com uma lógica imobiliária própria.

A área que melhor espelha esta mudança é a de comercialização de espaços, que cresceu 14,4%, atingindo uma faturação de 95 milhões de euros. Trata-se da área com o crescimento mais expressivo de todo o grupo, acima do retalho tradicional, das viagens e dos negócios financeiros, e a um ritmo que começa a captar a atenção dos analistas.

Este crescimento assenta em dois pilares fundamentais: por um lado, a rentabilização dos ativos instalados nas lojas, onde se destacam os parques de estacionamento e as infraestruturas de carregamento para veículos elétricos; por outro, a contribuição dos ativos independentes, entre os quais se encontra a KUMO, a unidade de centros de dados do grupo, que já dispõe de uma nova instalação em Paterna, na região de Valência.

Grupo começou a explorar potencial dos imóveis

A lógica subjacente a esta estratégia é clara. O El Corte Inglés é um dos maiores proprietários de imóveis urbanos premium em Espanha, possuindo estabelecimentos localizados nas principais artérias comerciais das cidades mais populosas do país. Durante décadas, essa posição privilegiada traduziu-se sobretudo em vendas diretas ao consumidor. Agora, o grupo começou a explorar o potencial desses metros quadrados de uma forma diferente: cedendo espaço a terceiros, instalando infraestruturas ligadas à mobilidade e acolhendo centros de processamento de dados. Em essência, assumindo também o papel de operador imobiliário de primeira linha.

A aposta na rentabilização do espaço para além da atividade comercial tradicional não é um fenómeno pontual. Durante o exercício, o El Corte Inglés investiu 567 milhões de euros, destinando a maior parte desse montante a ativos comerciais, logística e infraestruturas tecnológicas.

Este esforço deverá intensificar-se este ano: o grupo prevê investir 650 milhões de euros, um aumento de 14,6%, conforme anunciado em janeiro pela presidente Cristina Álvarez. A apresentação de resultados detalha que este investimento será repartido entre ativos comerciais e logísticos, por um lado, e tecnologia, por outro, confirmando que a transformação dos espaços físicos e a digitalização estão a avançar em simultâneo.

Ao mesmo tempo, o rácio loan-to-value da carteira imobiliária melhorou de 11,4% para 10,5%, sinal de que o valor dos ativos está a crescer mais rapidamente do que a dívida. O grupo acumula uma dívida financeira líquida de 1.648 milhões de euros, a mais baixa dos últimos quase vinte anos, apresentando um nível de alavancagem equivalente a 1,3 vezes o EBITDA.

Esta posição financeira sólida permite à empresa concretizar investimentos de grande dimensão sem comprometer a sua solvência, classificada com rating BBB e perspetiva positiva pelas agências de notação financeira Fitch e S&P.

Entretanto, o negócio tradicional continua a apresentar um desempenho robusto. A área de Moda e Beleza, que inclui joalharia, relojoaria, desporto e cosmética, cresceu 3,1%, alcançando 5.882 milhões de euros em vendas e consolidando-se como o principal motor do retalho do grupo.

A divisão de Alimentação e Restauração registou um crescimento de 1,5%, com o Club del Gourmet a destacar-se positivamente. Já a área de Casa e Eletrónica manteve-se praticamente estável, crescendo apenas 0,3%, penalizada pela fraqueza do mercado de eletrónica de consumo.

Por sua vez, a Viajes El Corte Inglés aumentou a sua atividade em 3,1%, impulsionada pelo segmento de lazer e pelo negócio próprio de operador turístico, desenvolvido através das marcas Tourmundial e Club de Vacaciones.

No canal digital, as plataformas online do grupo ultrapassaram os 1.007 milhões de visitas, entre websites e aplicações móveis, face aos 891,7 milhões registados no exercício anterior. O número de clientes registados atingiu os 16,3 milhões.

A aceleração da atividade digital não retirou relevância às lojas físicas; pelo contrário, ambas coexistem num modelo que o grupo descreve como uma estratégia de reforço da eficiência operacional em loja. Esta dinâmica tornou-se particularmente visível na segunda metade do exercício, período em que as vendas cresceram 2,2% em termos comparáveis, após um primeiro semestre condicionado por condições meteorológicas desfavoráveis.

O retrato que emerge destes resultados é o de uma empresa que conseguiu reforçar a solidez do seu balanço, acelerar o investimento e encontrar na valorização dos seus ativos físicos uma nova via de crescimento complementar ao negócio tradicional de retalho.

A questão que permanece é até onde poderá evoluir esta área de comercialização de espaços que, embora ainda represente uma parcela modesta da faturação total, apresenta uma trajetória que aponta para um papel cada vez mais relevante na estratégia do grupo nos próximos anos.

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