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08 Jun

Construção mais digital: o que traz de novo a estratégia nacional BIM?

O Governo de Montenegro quer posicionar Portugal na vanguarda da inovação e transformação digital em várias frentes, nomeadamente no setor da construção. Foi tendo isso em vista que o Conselho de Ministros aprovou recentemente a nova Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM (Building Information Modeling). Mas o que é o BIM? E como é que esta nova estratégia pode otimizar a construção de casas no país? Explicamos tudo.

A nova estratégia nacional para implementar o BIM – designada PortugalBIM – foi publicada em Diário da República no passado dia 21 de maio, entrando em vigor logo no dia seguinte. Mas ainda há trabalho a fazer. O Instituto dos Mercados Públicos, do Imobiliário e da Construção (IMPIC), entidade responsável pela implementação e acompanhamento do BIM, tem até dia 20 de agosto para elaborar e apresentar um plano de ação nacional, que passará pelo crivo do Governo. 

É neste contexto de digitalização da construção em Portugal que importa saber o que é o BIM, que vantagens e desafios traz para os projetos de construção, e qual é a nova estratégia nacional PortugalBIM. O engenheiro civil Bruno de Carvalho Matos explica tudo neste artigo preparado para o idealista/news.

O que é o BIM?

O Building Information Modelling (BIM), ou Modelação da Informação da Construção, é uma metodologia de trabalho colaborativa baseada na criação, gestão e partilha de informação ao longo do ciclo de vida de um ativo construído. 

A metodologia assenta na criação de modelos digitais tridimensionais capazes de reunir dados geométricos, técnicos, funcionais e operacionais num único ambiente colaborativo. Estes modelos permitem acompanhar todas as fases do desenvolvimento de um empreendimento, desde o planeamento e projeto até à construção, utilização, operação e manutenção, assegurando uma gestão mais eficiente da informação e dos ativos.

A evolução tecnológica associada ao BIM tem igualmente permitido o desenvolvimento de conceitos como os gémeos digitais (digital twins), que possibilitam a monitorização e simulação do comportamento dos ativos em tempo real, apoiando decisões mais informadas ao longo da sua vida útil.

BIM em Portugal

Magnific

Quais são as principais vantagens do BIM?

Uma das principais vantagens do BIM reside na melhoria da coordenação e colaboração entre os diferentes intervenientes no desenvolvimento de um empreendimento. A existência de um modelo digital partilhado permite reduzir incompatibilidades entre especialidades, minimizar erros de projeto e antecipar problemas antes da fase de construção.

A metodologia contribui igualmente para uma maior eficiência económica, permitindo uma melhor previsão de custos, prazos e necessidades de recursos. A possibilidade de realizar simulações e análises prévias reduz desperdícios, retrabalhos e desvios orçamentais, promovendo uma gestão mais rigorosa dos empreendimentos.

Do ponto de vista ambiental, o BIM favorece a adoção de soluções mais sustentáveis, através da otimização de materiais, da melhoria do desempenho energético dos edifícios e da gestão mais eficiente dos recursos ao longo do ciclo de vida das construções.

Acrescem ainda benefícios associados à transparência dos processos, à rastreabilidade da informação e à melhoria da gestão da operação e manutenção dos ativos, aspetos particularmente relevantes para entidades públicas e gestores de património construído.

Arquitetura em Portugal

Foto de Alena Darmel no Pexels

Como proliferou o BIM na Europa e em Portugal?

Nas últimas duas décadas, a implementação do BIM tornou-se uma prioridade em diversos países europeus, impulsionada por políticas públicas orientadas para a transformação digital do setor da construção.

Países como o Reino Unido, a Noruega e a França assumiram posições pioneiras na adoção da metodologia em projetos públicos, enquanto a Alemanha, Espanha, Itália e Suécia desenvolveram programas específicos para a sua aplicação em infraestruturas e transportes. Atualmente, o BIM é amplamente reconhecido como um instrumento para aumentar a produtividade, a qualidade e a sustentabilidade da construção.

Ao nível europeu, a Diretiva 2014/24/UE relativa aos contratos públicos reconhece expressamente a possibilidade de os Estados-membros exigirem a utilização de metodologias BIM em contratos de obras públicas e concursos de conceção. Paralelamente, a normalização europeia desenvolvida pelo Comité Técnico CEN/TC 442 permitiu a criação de um conjunto de normas de referência, destacando-se a série EN ISO 19650 para a gestão da informação em ambiente BIM e a EN ISO 16739 para a interoperabilidade de dados.

Em Portugal, a adoção da metodologia tem vindo a crescer de forma gradual, acompanhando a evolução europeia. Entre os principais marcos regulamentaress destacam-se a criação da Comissão Técnica de Normalização CT 197 – BIM, no âmbito do Instituto Português da Qualidade, a publicação da Portaria n.º 255/2023 relativa à elaboração de projetos e obras públicas e, mais recentemente, o Decreto-Lei n.º 10/2024 (Simplex Urbanístico), que prevê que os projetos de arquitetura abrangidos pelo Regime Jurídico da Urbanização e da Edificação passem a ser modelados em BIM a partir de 2030.

Este enquadramento demonstra uma crescente integração da metodologia BIM nas políticas públicas nacionais e um alinhamento progressivo com as práticas internacionais mais avançadas.

Digitalização da construção e arquitetura

Getty images

Portugal precisa de medidas estruturadas para o BIM

Apesar dos avanços registados, a implementação do BIM em Portugal continua a enfrentar diversos desafios. Entre os principais constrangimentos destacam-se a reduzida maturidade digital de parte significativa do setor, a escassez de profissionais especializados, a necessidade de reforço da oferta formativa e os custos associados à aquisição de software e à modernização das infraestruturas tecnológicas.

Persistem igualmente desafios relacionados com a harmonização de procedimentos, a normalização de requisitos de informação, a interoperabilidade entre plataformas e a adaptação dos processos administrativos e regulamentares existentes à nova realidade digital.

A superação destes obstáculos exige uma abordagem coordenada que envolva entidades públicas, empresas, instituições de ensino, associações profissionais e organismos de normalização. Neste contexto, torna-se fundamental a existência de uma estratégia nacional capaz de orientar a transformação digital do setor e de criar condições para uma adoção mais generalizada e consistente da metodologia BIM.

BIM na Europa

Magnific

A Estratégia Nacional BIM: o que traz de novo?

Com o objetivo de acelerar a transformação digital do setor da construção, o Governo aprovou, através da Resolução do Conselho de Ministros n.º 89/2026, a Estratégia Nacional para a Implementação da Metodologia BIM, designada PortugalBIM.

A estratégia visa criar as condições necessárias para que o BIM se torne parte integrante dos setores da arquitetura, engenharia, construção e operação em Portugal, contribuindo para o aumento da eficiência económica, da sustentabilidade ambiental e da transparência dos processos.

A PortugalBIM assenta em quatro pilares estratégicos:

  • Políticas: destinadas à promoção da comunicação, monitorização, investigação e disseminação de boas práticas;
  • Normalização: focada no desenvolvimento de guias, referenciais e enquadramentos normativos;
  • Tecnologias: orientadas para a criação de plataformas digitais, repositórios de informação e mecanismos de interoperabilidade;
  • Capacitação: direcionada para a formação, qualificação profissional e desenvolvimento de competências técnicas.

Entre as principais medidas previstas destacam-se a criação de uma plataforma nacional de conhecimento BIM, o desenvolvimento de referenciais pedagógicos e formativos, a qualificação de milhares de profissionais dos setores público e privado, o apoio à implementação da metodologia em municípios e PME e a promoção da adoção do BIM na contratação pública. 

A implementação da estratégia é coordenada pelo IMPIC, ficando estipulada a sua execução até abril de 2032, acompanhada por mecanismos de monitorização, avaliação e reporte periódico da sua implementação. Neste contexto, cabe também ao IMPIC a elaboração de um plano de ação até 20 de agosto de 2026, destinado a operacionalizar a implementação da estratégia, definindo as ações a desenvolver, os recursos a afetar, o investimento previsto e as metas anuais de execução. 

A PortugalBIM constitui, assim, o principal instrumento de política pública para apoiar a modernização e digitalização do setor da construção em Portugal, procurando criar as condições necessárias para uma adoção mais ampla e consistente da metodologia BIM, em alinhamento com as tendências e exigências do contexto europeu.

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