
A cabine de duche quer protagonismo (e pode ter estilo)
Encher uma banheira gasta perto de 200 litros de água e obriga a ter mais metros quadrados na casa de banho. Um duche de cinco minutos fica-se por 40 litros e ocupa, literalmente, um cantinho. Com a área útil e a água a pesarem cada vez mais nas repetivas faturas, a conta fez-se sozinha e a banheira começou a desaparecer das plantas dos apartamentos novos e também em projetos de reformas. Até aqui, nada de surpreendente.
O que ninguém previu foi o que aconteceu a seguir: o duche, que herdou o lugar por motivos de sustentabilidade mas também por uma questão de espaço, deixou de se contentar em ser um canto envidraçado e passou a querer ser a peça mais arquitetónica da divisão.
A cabine banal foi despromovida
Toda a gente conhece a cabine genérica: perfil de alumínio cinzento, vidro liso, dobradiças. Cumpre mas não acrescenta nada. É o equivalente, na casa de banho, à porta lacada a branco sem puxador à altura. Funciona e esquece-se.
O que mudou é a consciência de que o duche é a maior superfície vertical contínua da divisão. Tem altura, tem profundidade, tem luz a entrar. Tratá-lo como uma caixa transparente é desperdiçar a parede com mais potencial decorativo da casa de banho. Nasceu espaço para um duche desenhado para ser visto.
Cinco sinais de que o teu duche está a pedir uma reforma
- O perfil é de alumínio cinzento e não combina com mais nada na divisão.
- O interior tem o mesmo azulejo branco das paredes, sem qualquer distinção.
- O chuveiro é o que vinha no kit, em crómio brilhante já com calcário.
- Há manchas e silicone amarelecido nas juntas dos vidros.
- Quando entras na casa de banho, o olhar não pousa em lado nenhum.
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O caixilho deixou de ser neutro (e ganhou cor)
O gesto mais simples e mais transformador é também o mais barato em material: pintar ou escolher o perfil do resguardo numa cor com carácter. Um caixilho azul-cobalto contra azulejo cru, um perfil verde-musgo a recortar o vidro, uma estrutura vermelho-coral a desenhar um arco. O vidro continua transparente, a base continua igual, mas o duche passa a ter um contorno que se afirma na divisão em vez de tentar desaparecer.
Há aqui um detalhe técnico que vale a pena referir. O perfil colorido funciona melhor quando dialoga com um segundo elemento da mesma cor. Um rodapé, uma moldura de espelho, a base de um móvel suspenso. Assim a cor não fica órfã, parece intenção e não acidente. Os serralheiros que trabalham com arquitetos já fazem estes caixilhos por medida em ferro lacado, com acabamentos em cores RAL à escolha, e ficam por valores muito abaixo do que se imagina face ao impacto que têm.
Vidro canelado e tijolo de vidro: a textura voltou
Se há material que estava remetido aos anos oitenta e voltou em força é o tijolo de vidro. Já não como aquela parede leitosa de casa de banho de prédio antigo, mas como divisória translúcida que separa o duche do resto da divisão sem fechar a luz. Em tons azulados, verdes ou simplesmente transparentes, faz de parede e de janela ao mesmo tempo. Filtra a luz, dá privacidade, e tem aquele desenho gráfico que uma parede lisa nunca terá.
A alternativa é o vidro canelado, também chamado vidro estriado. Substitui o vidro liso do resguardo por um vidro com relevo vertical que difunde a luz e esbate as silhuetas. Ganha-se textura, ganha-se privacidade, e o duche passa de transparente a translúcido com uma elegância que o vidro comum não consegue. Combinado com caixilho de madeira ou de ferro lacado escuro, é dos gestos mais sofisticados que se podem fazer numa casa de banho sem mexer em canalização.

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Arcos, nichos e geometria
Quem quer ir mais longe pega na própria forma do duche. O arco é o exemplo mais óbvio do regresso da curva à casa de banho. Um resguardo desenhado em arco, com o perfil a acompanhar a curva da abertura, transforma a entrada do duche numa moldura. Deixa de ser um sítio onde se entra para tomar banho e passa a ser um elemento arquitetónico com peso próprio na composição.
Os nichos seguem a mesma lógica. Em vez do habitual buraco retangular para o champô, há quem desenhe nichos arqueados, em pedra contrastante, ou com uma luz indireta lá dentro que à noite acende como uma montra. É um pormenor que custa pouco em obra, porque se resolve durante o assentamento dos azulejos, e que dá ao duche um detalhe que ninguém espera encontrar.
Os metais entraram dentro do duche
Durante anos, a torneira e o chuveiro foram a parte que se tentava esconder. Crómio, o mais discreto possível, encostado à parede. Hoje são protagonistas. O latão envelhecido, o cobre, o dourado mate e o preto fosco mudaram o estatuto da torneira de objeto técnico para objeto de joalharia.
Um chuveiro de coluna em latão escovado contra azulejo escuro tem o mesmo efeito que um candeeiro de autor numa sala. Trocar o chuveiro do kit por uma peça em latão ou cobre é, provavelmente, a intervenção com melhor relação entre custo e impacto que se pode fazer num duche. Não exige obra, exige bom gosto na escolha.

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Cor e padrão dentro da caixa
A última fronteira é o interior do duche. Aqui está a maior oportunidade desperdiçada da casa de banho portuguesa: o duche tem quase sempre o mesmo azulejo branco das paredes circundantes, como se quisesse pedir desculpa por existir. Inverte a lógica. Faz do interior do duche o sítio onde acontece a cor.
Um azulejo azul-escuro vidrado, um verde-garrafa, um terracota canelado na vertical para puxar o pé direito. A própria base pode receber um mosaico hidráulico com padrão geométrico, e de repente o chão do duche é o pormenor mais fotografado da casa. As cerâmicas portuguesas, da Recer à Love Tiles, passando pela Margres e pela Aleluia, têm coleções com profundidade de cor e relevo que fazem qualquer duche parecer desenhado de propósito. O azulejo deixou de ser revestimento e passou a ser declaração.
E se tirares o resguardo de vez
Há ainda a hipótese mais radical, que é a de não pôr resguardo nenhum. O duche aberto, ou walk-in, dispensa porta e dispensa contenção total. Resolve-se com uma boa inclinação para o ralo, um pano de vidro fixo a meio e, idealmente, um chão contínuo entre o duche e o resto da divisão. O efeito é de continuidade. A casa de banho lê-se como um espaço só, sem aquela caixa a interromper o olhar.
Tecnicamente exige cuidado: pé direito generoso, ventilação eficaz e um pavimento que aguente humidade constante. Não serve para qualquer casa de banho minúscula. Mas onde há espaço, é o gesto que mais aproxima uma casa de banho doméstica da sensação de um bom hotel.

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