
A alimentação sustentável e saudável começa na escola?
A forma como comemos está cada vez mais dentro das nossas casas e no centro do debate sobre a sustentabilidade, a saúde pública e o futuro ambiental. Em Portugal, onde mais de 50% da pegada ecológica alimentar resulta do consumo de carne e peixe, a transição para padrões alimentares mais equilibrados e ricos em proteína vegetal surge como uma das mudanças mais urgentes, não apenas para reduzir as emissões, mas também para promover sistemas alimentares mais resilientes e alinhados com as recomendações nutricionais, que contribuem para a longevidade e o bem-estar da população ao longo do tempo.
Foi para percebermos melhor quais são as vantagens inerentes da proteína vegetal que conversámos com Joana Oliveira, a diretora da ProVeg Portugal. E falou-se de alguns dos desafios e as distintas oportunidades que têm surgido em prol de uma estratégia nacional para a proteína vegetal. Foi possível perceber o papel das autarquias na transformação das cantinas públicas e o impacto da educação alimentar nas novas gerações. Pelo caminho, surgiram números impressionantes, afinal a organização já ajuda a viabilizar cerca de 200 mil refeições ricas em vegetais por ano, com uma pegada carbónica 3 a 6 vezes inferior à das refeições convencionais, algo que só revela o potencial de mudança quando se investe em políticas alimentares mais sustentáveis.
A resposta exige, provavelmente, mudanças de comportamento e uma combinação da estratégia política, da educação alimentar e da intervenção prática no terreno. Para a ProVeg Portugal, é fundamental atuar na origem, desde o apoio aos agricultores até à reformulação das refeições servidas nos refeitórios públicos. Assim, torna-se mais fácil perceber como pequenas mudanças no prato podem traduzir-se em impactos significativos, tanto para o planeta como para a saúde das pessoas.
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Como se poderia criar uma estratégia nacional para a proteína vegetal e quais seriam os primeiros passos ou as medidas políticas mais urgentes para tirar essa estratégia do papel?
A criação de uma estratégia nacional para a proteína vegetal, com especial foco nas leguminosas, requer uma abordagem colaborativa, multissetorial e fortemente apoiada por políticas governamentais. Um possível modelo para desenhar esta estratégia já começou a ser delineado em Portugal com o Grupo Colaborativo da Estratégia Nacional pela Proteína Vegetal, criado pela ProVeg Portugal em 2025 e que conta, à data, com mais de 80 entidades-membros, principalmente empresas e representantes do setor agrícolas, mas também ONGs, investigadores, entre outros.
Para que a estratégia saia efetivamente do papel, o Governo tem um papel central de coordenação. É necessário garantir um alinhamento com os planos climáticos e agrícolas já existentes, como o Plano Nacional Energia e Clima 2030 (PNEC 2030), que já prevê a implementação de uma estratégia que promove a proteína vegetal, sendo igualmente necessário assegurar vias de financiamento sólidas, recorrendo ao Plano Estratégico da Política Agrícola Comum (PEPAC) e a fundos de transição climática e inovação.
Para operacionalizar a estratégia, o Grupo Colaborativo da Estratégia Nacional pela Proteína Vegetal identificou nove medidas políticas que podem ser consideradas, nomeadamente campanhas de educação e literacia alimentar, apoio técnico e tecnológico aos agricultores, desenvolvimento e disponibilidade de sementes, incentivos fiscais, atuação nas compras públicas para promoção das cadeias curtas, aumentar e melhorar a oferta de refeições com leguminosas nos refeitórios públicos, capacitação da cadeia agroindustrial, promoção de bolsas de investigação para o desenvolvimento de novos produtos à base de leguminosas e atuar ao nível da proteção e resiliência das culturas.
“Com este programa, facilitamos cerca de 200 mil refeições ricas em vegetais por ano, com refeições que têm cerca de 3 a 6 vezes menos pegada carbónica.”
Como é que a ProVeg atua junto das autarquias para garantir que as cantinas públicas passam a exigir uma maior percentagem de leguminosas e refeições de base vegetal?
A ProVeg Portugal atua junto das autarquias combinando consultoria técnica, capacitação e sensibilização da comunidade para facilitar ementas mais ricas em leguminosas e vegetais em geral.
O trabalho começa ao nível administrativo e de planeamento, onde a ProVeg Portugal apoia os municípios na revisão das ementas e dos cadernos de encargos para os concursos públicos de fornecimento de refeições. Através da disponibilização de dezenas de fichas técnicas e de receitas validadas nutricionalmente, damos a segurança técnica para que a oferta alimentar seja saudável, sustentável e tenha uma maior percentagem de vegetais, promovendo-se o uso diário de leguminosas.
Para garantir que essa exigência se traduz em refeições saborosas e bem aceites, a ProVeg Portugal realiza formações práticas de culinária destinadas às equipas de cozinha dos refeitórios públicos. Estas ações capacitam os cozinheiros e previne a eventual rejeição dos pratos, o que reduz o desperdício alimentar.

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Em paralelo, trabalhamos na sensibilização da comunidade escolar para criar um ambiente favorável a hábitos mais sustentáveis e saudáveis. Isto é feito através de workshops pedagógicos com alunos e professores, além de sessões de esclarecimento com os encarregados de educação para garantir a confiança das famílias no valor nutricional das refeições.
Por último, e com particular relevância, ajudamos as autarquias a monitorizar o impacto destas ações, fornecendo-lhes relatórios personalizados de redução da pegada ambiental.
“Os níveis de desperdício alimentar tendem a diminuir ao longo do tempo, demonstrando que as crianças vão ganhando maior familiaridade com alimentos saudáveis, como as leguminosas.”
Sabendo que em Portugal mais de 50% da pegada ecológica alimentar vem do consumo de carne e peixe, qual é a meta da ProVeg Portugal para a redução desta percentagem até 2030?
A evidência científica tem sido consistente ao demonstrar que aumentar o consumo de alimentos de origem vegetal reduz a pressão ambiental e gera um impacto climático positivo. Outras estratégias – como a redução do desperdício alimentar e a adoção de métodos de produção mais ecológicos – também são cruciais, mas a adopção de um padrão alimentar rico em vegetais, como a Dieta Mediterrânica, oferece um dos caminhos mais eficazes e acessíveis a qualquer pessoa para proteger o planeta.
Nesse sentido, em vez de se centrar numa percentagem-alvo única até 2030, a atuação da ProVeg Portugal privilegia uma lógica de transformação integrada e sustentada do ecossistema alimentar, ampliando a oferta e a qualidade de opções vegetais, melhorando a acessibilidade e a aceitação pelo público, e apoiando mudanças práticas em contextos com grande escala.
Quais têm sido as maiores barreiras ou resistências (por parte de cozinheiros, alunos ou pais) na implementação de pratos de base vegetal nas escolas, e como é que as contornam?
Em primeiro lugar, é importante explicar que a inclusão de mais pratos de base vegetal, saborosos e nutritivos, beneficia todos os alunos ao enriquecer e diversificar a alimentação nalguns dias do mês. Isto permite equilibrar os hábitos de consumo atuais, ajudando a alinhá-los com as recomendações da Roda dos Alimentos e da Dieta Mediterrânica, reconhecida por ser quase 80% de base vegetal. Em relação às barreiras, contornamos através de três estratégias principais.

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Para as equipas de cozinha, oferecemos formações práticas para estarem mais confiantes na execução do seu trabalho. Para os alunos, que muitas vezes apresentam alguma seletividade alimentar em relação a hortícolas ou leguminosas, apostamos em pratos apelativos, tanto ao nível visual, como da textura e sabor, semelhantes a pratos que já conhecem (por exemplo, grão-de-bico à Brás), bem como numa linguagem e forma de apresentação dos pratos que não crie resistência. Também dinamizamos workshops e degustações lúdicas.
Para os pais (que, por vezes, temem a falta de nutrientes, em particular de proteína), realizamos sessões de esclarecimento baseadas na ciência, demonstrando que as ementas são validadas por nutricionistas e cumprem rigorosamente as diretrizes da Direção-Geral da Saúde.
“Em Portugal, mais de 50% da pegada ecológica alimentar vem do consumo de carne e peixe.”
Como é que medem o impacto a longo prazo do “Desafio Prato Sustentável”? Têm dados que mostrem se os alunos mudam efetivamente os seus hábitos alimentares em casa após a campanha?
O “Desafio Prato Sustentável” é uma campanha nossa de curta duração, em que a ProVeg Portugal desafia as comunidades escolares a implementar atividades relacionadas com a alimentação sustentável e a incluir refeições ricas em vegetais nas suas ementas escolares. Em 2025, este desafio impactou cerca de 6 mil alunos e refeições.
Este é um primeiro passo para as comunidades escolares e os municípios participarem no nosso programa completo mais alargado, em que os apoiamos a melhorar as refeições escolares, através de formação profissional, sessões de sensibilização e novas receitas para a sua ementa. Com este programa, facilitamos cerca de 200 mil refeições ricas em vegetais por ano, assim como reduzimos a pegada ambiental do município, com refeições que têm cerca de 3 a 6 vezes menos pegada carbónica.
Outra forma de impacto, que também reflete a aceitação das refeições, é o facto de os níveis respetivos de desperdício alimentar tenderem a diminuir ao longo do tempo. Isto contribui para demonstrar que as crianças vão ganhando maior familiaridade com certos alimentos saudáveis e necessários, como as leguminosas, à medida que os consomem com mais frequência.