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15 Ago

Casas icónicas: as três portuguesas no mapa mundial

Numa avenida de Matosinhos, a poucos minutos da praia, há uma moradia de 1957 que figura ao lado da Fallingwater, de Frank Lloyd Wright, e da Villa Savoye, de Le Corbusier. Chama-se Casa d’Abreu Neto, faz parte do conjunto das Quatro Casas e foi a primeira obra construída de Álvaro Siza, projetada quando ainda era estudante de arquitetura. 

Desde setembro de 2024, integra a Iconic Houses, a rede internacional que reúne casas do século XX consideradas relevantes para a história da arquitetura moderna e abertas ao público. Em janeiro deste ano, a organização que gere a rede publicou um documento a explicar os sete pontos que procura numa casa antes de a considerar icónica.

Portugal tem três moradias nesse mapa. Além da casa de Matosinhos, há a Casa das Marinhas, em Esposende, de Viana de Lima, e a Casa de Serralves, no Porto. Três num universo de quase 200 entradas, dominado pela República Checa, pelos Países Baixos, pela Alemanha e pelos Estados Unidos.

Uma rede que nasceu de uma casa em Utreque

Los Angeles

Los Angeles

Magnific

A Iconic Houses não começou como diretório nem como guia de viagens. Em 1992, o arquiteto neerlandês Mart van Schijndel construiu para si uma casa escondida no interior de um quarteirão de Utreque, num terreno sem frente de rua. Morreu em 1999 e a sua companheira, Natascha Drabbe, historiadora de arquitetura formada pela universidade da cidade, ficou a viver lá e decidiu abrir a casa a arquitetos e estudantes.

Depressa percebeu que não tinha a quem perguntar nada. Como se restaura uma caixilharia experimental que já ninguém fabrica? Como se recebem visitantes numa casa que continua a ser habitada? Como se financia a manutenção de um monumento privado?

Em 2007, criou uma fundação dedicada ao legado do arquiteto. Cinco anos depois, lançou a rede internacional e o site, com um conselho inicial que juntou as diretoras da Villa Tugendhat, em Brno, da Schindler House, em Los Angeles, e da Fallingwater, na Pensilvânia. A sede da fundação continua a ser a morada da casa que deu origem a tudo isto.

O conceito é o de fórum profissional, não o de ranking. Quem gere uma casa-museu do século XX lida com questões que se repetem em todo o mundo e que raramente encontram resposta na literatura de museus convencional: restauro de materiais experimentais, conservação de mobiliário desenhado à medida, desgaste provocado pelas visitas, captação de público, programação temporária em espaços que não foram feitos para expor e, sobretudo, dinheiro. A rede existe para pôr essas pessoas em contacto.

Os sete critérios que definem uma casa icónica

  1. Inovação arquitetónica: a casa rompe com a convenção ou introduz materiais, técnicas e conceitos de espaço que ainda não existiam. O exemplo citado é a Fallingwater, pelos avanços em consola sobre a cascata.

  2. Distinção estética: uma silhueta, uma fachada ou um estilo que se reconhecem de imediato. A Villa Savoye serve de referência, com os pilotis a levantar a casa do chão e as janelas em banda.

  3. Peso cultural e histórico: casas ligadas a um movimento, como o modernismo ou o brutalismo, ou a um arquiteto que definiu uma época, e que acabam a simbolizar um período ou uma forma de viver. A Eames House, na Califórnia, é o caso apontado.

  4. Influência: a casa é copiada, citada e estudada nas escolas de arquitetura, e transforma-se em referência para o que se projeta a seguir.

  5. Ressonância emocional: tem menos a ver com desenho e mais com o que se sente lá dentro: a experiência do espaço, da luz e dos materiais, e a capacidade de provocar espanto, conforto ou curiosidade.

  6. Relação com o sítio: tanto conta a casa que se funde com a paisagem como a que assume o contraste, desde que a decisão seja deliberada e pensada para aquele terreno.

  7. Longevidade: a casa aguenta a passagem do tempo e continua a ser fotografada, discutida e publicada décadas depois de construída.

As quatro regras para entrar no diretório

Cumprir os sete critérios não chega. A rede aplica quatro condições de admissão, e são elas que explicam por que razão tantas moradias notáveis ficam de fora.

  • A casa tem de ser reconhecida pela sua importância no desenvolvimento da arquitetura moderna do século XX;
  • Tem de ter sido projetada por um arquiteto com papel influente nessa história, comprovado por publicações académicas;
  • Tem de estar no estado original ou restaurada de forma fiel, sem obras que prejudiquem a intenção do autor;
  • Tem de estar acessível ao público, com horário regular ou visita marcada, e com morada, contactos e condições de visita publicados online.

É o último ponto que faz a maior triagem. Muitas casas de autor em Portugal continuam a ser residências privadas e nunca abriram a porta a quem não seja convidado. As próprias Quatro Casas de Siza, classificadas como conjunto de interesse municipal em 2022, são visitáveis apenas pelo exterior (com uma exceção).

Casa d’Abreu Neto: a primeira obra de Siza, e podes dormir lá

Casa d'Abreu

Casa d’Abreu

Pedro Cardigo

A exceção é a casa dos Neto. Siza tinha 21 anos quando começou a desenhá-la, em 1954, e ainda estudava na Escola Superior de Belas Artes do Porto. Os clientes eram uma família de Matosinhos, a obra ficou concluída em 1957 e houve polémica local sobre a audácia do projeto. O arquiteto trata os primeiros clientes por “primeiras vítimas”. A família, por seu lado, sempre lhe chamou “o nosso arquitecto”, e foi esse o título do livro que a filha dos proprietários escreveu sobre o processo.

O que sobreviveu na casa não é apenas a volumetria. São as maçanetas, os móveis, o corrimão de forma orgânica e a escada de madeira feita à mão com um carpinteiro local, tudo desenhado por Siza. A cozinha tem uma bancada em mosaico cerâmico laranja que continua a ser dos elementos mais fotografados do interior. O programa é o de uma casa de família de meados do século: quatro quartos, sala, escritório, duas casas de banho, cozinha, lavandaria, jardim, solário e uma varanda larga.

Siza só voltou lá em 2019, mais de seis décadas depois, num reencontro com o primeiro cliente que deu origem ao documentário “O Primeiro Siza”. Hoje é a neta dos proprietários originais quem gere a casa, que funciona como alojamento e recebe visitas guiadas. O espólio das Quatro Casas foi doado por Siza à Fundação de Serralves em 2015.

Casa das Marinhas: o solar dos tempos modernos

Casa das Marinhas

Casa das Marinhas

CM Esposende

Viana de Lima nasceu em Esposende e foi lá que construiu, a partir de 1954, a casa de férias que viria a ser reconhecida como um dos ícones do modernismo português. Chamou-lhe “o solar dos tempos modernos”, uma expressão que resume o que a casa faz: aplicar a linguagem moderna sem cortar com a construção tradicional da região.

No piso térreo, o espaço é contínuo, dividido por elementos móveis que separam cozinha, sala de estar e sala de jantar sem levantar paredes. A zona de estar tem pé-direito duplo e um envidraçado grande virado para o mar, ligando-se visualmente ao piso de cima. 

No exterior, a laje da cobertura prolonga-se e a parede norte, em granito, funciona como proteção contra o vento dominante. O jardim foi desenhado com muros baixos a poente, para que o olhar passe por cima e siga pelos campos até aos pinhais e à praia. A nascente, os muros de pedra são mais altos e fecham a vista sobre os montes. No terreno, o arquiteto integrou um velho moinho que já lá existia.

A casa está classificada como Monumento de Interesse Público desde 2012 e pertence hoje ao município, que a gere como casa-museu. Faz parte de um roteiro municipal de arquitetura modernista com 18 exemplares construídos entre os anos 40 e 70, onde entram nomes como Fernando Távora, Arménio Losa, João Andresen, Alcino Soutinho e Octávio Filgueiras.

Casa de Serralves: o encontro entre um cliente e uma época

A casa cor-de-rosa de Serralves foi mandada construir por Carlos Alberto Cabral, segundo conde de Vizela, na quinta de família à saída do Porto. O projeto arrastou-se entre 1925 e 1944 e o resultado é considerado o exemplar mais notável do Art Déco em Portugal.

A autoria repartida explica muito do edifício. A imagem das fachadas atribui-se ao francês Charles Siclis, que a definiu em aguarelas no final dos anos 20. O desenvolvimento e a execução ficaram a cargo de José Marques da Silva, o arquiteto do Porto responsável pela estação de São Bento e pelo Teatro São João. 

O interior recebeu mobiliário e decoração de Jacques Émile Ruhlmann, uma claraboia de René Lalique sobre o átrio do primeiro piso e um portão em ferro forjado de Edgar Brandt a separar a zona social dos quartos. Os jardins foram desenhados por Jacques Gréber. O elemento que ligou tudo isto foi o próprio dono da obra, que visitou a exposição de artes decorativas de Paris em 1925 e trouxe de lá os autores.

O imóvel foi classificado como de interesse público em 1996 e o conjunto patrimonial da fundação recebeu o estatuto de monumento nacional em 2012. Em setembro de 2020 arrancou uma intervenção de restauro orientada por Siza, que recuperou as salas ao pormenor, escondeu os equipamentos técnicos e tratou caixilharia, estores e vidros para permitir expor obras de arte sem tapar as janelas. A casa reabriu no ano seguinte.

Quanto custa visitar as casas icónicas portuguesas?

Porto

Porto

Magnific

  • Casa das Marinhas, Esposende: as visitas guiadas são gratuitas e fazem-se por marcação prévia junto do serviço de património do município. As sessões duram cerca de uma hora e o calendário muda de ano para ano, com horário alargado no verão;
  • Casa de Serralves, Porto: está incluída no bilhete completo da fundação, que dá acesso ao museu, à ala Siza, à casa, à Casa do Cinema e ao parque com os passadiços. O bilhete geral está nos 24 euros, com preço reduzido para residentes em Portugal e entrada gratuita no primeiro domingo de cada mês, mediante apresentação de documento de identificação na bilheteira. Só o parque fica por cerca de 15 euros;
  • Casa d’Abreu Neto, Matosinhos: funciona como alojamento local e recebe também visitas guiadas e eventos. Os valores dependem do tipo de experiência e da duração da estadia e são acertados diretamente com a proprietária.

As casas em risco e as que estão à venda

Robin Hood Gardens

Robin Hood Gardens

Wikimedia commons

O mapa é a face visível da plataforma, mas há duas camadas que interessam mais a quem compra e vende casas.

A primeira chama-se Icons at Risk e parte de um diagnóstico simples: as casas mais ameaçadas são as da segunda metade do século XX, precisamente porque ainda não são reconhecidas como património e não têm proteção legal em quase lado nenhum.

A lista funciona como observatório, com três estados possíveis:

  • Em risco;

  • Salva;

  • Demolida. 

Estão lá o Nakagin Capsule Tower de Tóquio, o conjunto Robin Hood Gardens em Londres, várias casas de Neutra na Califórnia e a Casa Sperimentale italiana. A Villa Cavrois, em França, aparece como caso resolvido. A Casa Gomis, nos arredores de Barcelona, foi adquirida pelo Ministério da Cultura espanhol, mas as visitas continuam suspensas enquanto não houver clareza sobre o novo modelo de gestão. Qualquer pessoa pode sinalizar um caso através de um formulário de alerta.

A segunda camada é um serviço de anúncios de âmbito mundial, criado com uma tese por trás: os dois maiores inimigos de uma casa moderna são a manutenção adiada e a casa vazia. Quanto mais tempo um imóvel destes fica no mercado, mais se degrada e mais provável se torna que o comprador seguinte o veja como terreno e não como obra. 

À data desta edição, estavam listadas quatro casas, entre elas uma moradia de Peter Behrens em Berlim, por 4,8 milhões de euros, e a própria casa de Utreque que deu origem à rede, por 1,9 milhões. Nenhuma casa portuguesa passou até hoje por esta montra, nem consta da lista de imóveis em risco.

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