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18 Mar

Conflito no Médio Oriente faz tremer o mercado imobiliário no Dubai

O conflito no Médio Oriente está a pôr fim, pelo menos temporariamente, à imagem do Dubai como “porto seguro”, com o imobiliário no centro da tempestade. Depois de um ‘boom’ sem precedentes entre 2022 e 2025, alimentado por um forte fluxo de estrangeiros residentes, rendimentos elevados e um quadro regulatório mais sólido, o mercado entrou em 2026 sob fortes tensões, à medida que a guerra entre os EUA e Israel contra o Irão expôs a dependência, a estabilidade regional e a falta de confiança dos investidores na cidade mais populosa dos Emirados Árabes Unidos (EAU).

De acordo com o ECO, citando dados do Goldman Sachs, os valores transacionados no mercado imobiliário dos EAU caíram 51% em termos mensais e 31% em termos homólogos na primeira quinzena de março, ou seja, praticamente desde o início do conflito. Na segunda semana do mês, “as transações no mercado secundário recuaram 59% face ao período homólogo, com o segmento de moradias a colapsar 89% em termos anuais”, escreve a publicação

Em paralelo, os preços medianos dos apartamentos por metro quadrado (m2) recuaram 8% face ao mês anterior, um sinal claro de que a incerteza geopolítica está a paralisar a procura.

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Este choque chega após um ciclo de forte valorização. Segundo a Fitch Ratings, citada pela Forbes, os preços das casas no Dubai subiram cerca de 60% entre 2022 e o primeiro trimestre de 2025, suportados por mais de 270 mil transações anuais e por novos desenvolvimentos avaliados em cerca de 60.000 milhões de euros. A agência antecipa agora uma “possível queda dos preços imobiliários no Dubai até 15% em 2026″, num contexto em que a oferta prevista – entre 300 mil e 400 mil novas unidades até 2028 – já ameaçava superar a procura, com cerca de 80% das compras a incidirem em imóveis em planta, o que aumenta o risco de correção.

Nos mercados financeiros, o impacto foi imediato. O ECO recorda que o DFM Real Estate Index, principal barómetro do setor cotado no Dubai, “acumulou uma valorização de 63% em 2024, seguida de mais 30% em 2025 e de outros 21% apenas nos primeiros dois meses de 2026”. 

Desde o início dos ataques, a 28 de fevereiro de 2026, “o índice entrou em queda livre, chegando a perder 38% e regressando a mínimos de abril do ano passado”, numa sequência de dez sessões negativas, apenas interrompida por uma recuperação técnica de 6,4%. Em paralelo, o índice imobiliário local recuou cerca de 20% desde o final de fevereiro, com as ações de grandes promotoras, como a Emaar e a Aldar, a caírem em torno de 5% num único dia.

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A crise estende-se ao mercado obrigacionista ligado ao imobiliário, um dos pilares recentes do crescimento da cidade. Os chamados sukuk – certificados financeiros que representam a propriedade de um ativo tangível, projeto ou serviço, em conformidade com a Sharia (lei islâmica) – a cinco anos, emitidos por promotores como Sobha Realty, Binghatti Holding e Arada Developments, registaram quedas entre 6% e 8,5% em poucas semanas, revelando a sensibilidade destes instrumentos à incerteza geopolítica. 

Apesar da forte correção, subsistem sinais de resiliência. Em fevereiro de 2026, antes da escalada mais aguda do conflito, tinham sido registadas quase 17 mil transações imobiliárias no Dubai, num valor próximo de 14 mil milhões de euros, mais 18% em termos homólogos, o que mostra que a procura não desapareceu por completo. 

Estudos de operadores como a Gabetti Middle East e avaliações do UBS, citados no debate internacional, sugerem que, embora o mercado esteja “em situação de alerta”, não reúne ainda as características típicas de uma bolha imobiliária, graças a fatores estruturais como o crescimento populacional, rendimentos entre 6% e 8% e uma regulação mais rigorosa, com contas de garantia para projetos ‘off‑plan’ supervisionados pelo Dubai Land Department.

Num mercado habituado a bater recordes, o setor imobiliário no Dubai enfrenta agora uma “paragem forçada numa ascensão que parecia não ter teto”, de acordo com o ECO. Com construtoras em modo defensivo, bancos de investimento a rever previsões e investidores mais cautelosos, o regresso aos máximos históricos dependerá menos da dinâmica interna do setor e mais da evolução de um conflito que está a redesenhar o mapa do risco no Golfo.

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