Vidros e fachada perfurada: esta casa desafia a arquitetura tradicional
Todas as quintas-feiras levamos-te a conhecer casas de sonho que estão espalhadas pelo globo. Hoje aterramos na Austrália, mais precisamente em Brisbane, na costa leste do país, para descobrir uma casa que desafia a forma tradicional de viver a arquitetura. Aqui, a relação entre a habitação e o exterior não se define apenas por abrir ou fechar fachadas, mas pela forma como se controla a perceção, criando um equilíbrio subtil entre a exposição e a intimidade.
É neste contexto que surge Birdwood, uma casa onde as fachadas perfuradas, a fragmentação dos volumes e o uso de materiais recuperados permitem regular a luz, a privacidade e a ligação ao exterior. Pensada para acompanhar a passagem do tempo, esta habitação explora um caminho intermédio entre a abertura e o resguardo, transformando a arquitetura num exercício sensível de adaptação, permanência e relação com o lugar.
Rory Gardiner
Uma habitação fragmentada
Situada num terreno inclinado, aos pés do monte Coot-tha, Birdwood foi idealizada como uma casa para uma família multigeracional que queria poder envelhecer no mesmo lugar. A topografia complexa do lote levou Peter Besley, o arquitecto local responsável pelo projeto, a afastar a ideia de uma habitação compacta e a optar por uma composição de volumes distintos, ligados entre si, mas com identidades próprias.
“A casa é como uma série de objetos e volumes, com uma natureza difusa entre o interior e o exterior, que te permite desfrutar da paisagem subtropical”, explicou. Esta estratégia responde tanto ao enquadramento natural como à diversidade de usos e ritmos de quem vive na casa.
Rory Gardiner
Por outro lado, a separação dos diferentes corpos permite que cada volume funcione quase como um pequeno mundo autónomo. “Ao circulares pela casa, tens a sensação de estar em vários ‘mundos’. Ainda assim, tinham de parecer um só, uma única composição”, acrescentou o arquiteto.
A partir da rua, a habitação não revela o que acontece no seu interior, apresentando-se de forma discreta. Os quartos estão instalados num volume branco, quase hermético, protegido por uma malha metálica que, com o tempo, ficará coberta de plantas trepadeiras.
As aberturas deste bloco são altas e estreitas e estão resguardadas por portadas de madeira de correr. Este tipo de acabamento surge também nas portas que dão acesso a um corredor exterior pavimentado, que funciona como a espinha dorsal da casa e liga as zonas de descanso aos espaços comuns.
Rory Gardiner
Tijolo perfurado e espaços abertos
Em contraste com o carácter mais fechado da frente, o volume posterior da casa abre-se de forma decidida para a paisagem. É aqui que surge o elemento mais distintivo do projeto: uma fachada dupla, composta por uma camada interior de vidro e uma camada exterior de tijolo perfurado.
Para esta pele porosa, bem como para os pavimentos exteriores e zonas revestidas a ladrilho, recorreram-se a tijolos e peças de terracota recuperados de uma antiga fábrica local que se encontra encerrada.
Rory Gardiner
O piso térreo deste volume acolhe uma ampla zona de estar, sala de jantar e cozinha, pensadas como um espaço contínuo. As grandes portas de correr em vidro, com caixilharia em madeira, permitem ainda que o interior se prolongue para um jardim pavimentado, que termina numa pequena piscina profunda, quase como um tanque, pensada para refrescar nos dias mais quentes.
O piso superior é uma área mais resguardada dedicada ao descanso, embora inclua também espaços de lazer, localizados junto a uma biblioteca suspensa em madeira que se abre para o vazio da sala de estar. Este espaço é iluminado por uma clarabóia em formato zigurate, que introduz a luz natural de forma controlada e reforça a sensação de verticalidade no interior.
Para o autor do projeto, a concepção deste espaço foi um “trabalho precioso e experiencial. Num momento estás ligeiramente junto ao chão, depois flutuas logo acima e, quando dás por isso, estás realmente alto, quase a voar”. Assim, a casa é vivida como uma sequência de mudanças e de relação com a paisagem.
Rory Gardiner
“Sentares-te lá em cima, na biblioteca suspensa, com um livro e vistas panorâmicas sobre a cidade e a paisagem, é realmente especial. Mas também adoro a pequena piscina em forma de lago. É elevada e profunda. Quando faz muito calor, podes mergulhar até ao fundo, como uma pedra, onde está mais fresco.”




