Preço do petróleo dispara com guerra no Irão – como fica Portugal?
A nova guerra no Médio Oriente veio testar a economia global, criando novas fontes de incerteza. O Estreito de Ormuz, a principal rota de transporte marítimo de petróleo e gás do mundo, foi encerrado esta semana pelo Irão depois de ter sido atacado pelos EUA e Israel. E os preços do petróleo e do gás dispararam. Todo este conflito militar está sob olhar atento dos líderes das autoridades mundiais e dos países, como é o caso do Governo de Montenegro, que já prepara medidas caso haja um agravamento dos preços dos combustíveis em Portugal.
O principal efeito do novo conflito no Médio Oriente – que eclodiu no passado fim de semana depois de os EUA e Israel terem lançado um ataque militar contra o Irão, tendo já escalado para outras geografias – tem sido na alta subida dos preços do petróleo e do gás. Isto porque não só está a travar a produção destas matérias-primas em países do Golfo Pérsico (Qatar e Arábia Saudita, por exemplo), como também está a paralisar o Estreito de Ormuz, a principal via de transporte.
Esta quinta-feira, dia 5 de março, os preços do petróleo Brent e do gás voltaram a subir 1,6% e mais de 5%, respetivamente, após novos ataques ao Irão e as dificuldades na travessia do Estreito de Ormuz. O preço do petróleo Brent, referência europeia, está em quase 85 dólares por barril, aumentando mais de 10 dólares face a sexta-feira, 27 de fevereiro, o dia imediatamente anterior ao início do conflito armado.
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A Ásia é o continente mais afetado pela crise no Estreito de Ormuz, uma rota estratégica por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo. Já na Europa, parece não haver sinais para alarme, pelo menos, para já. A chefe da diplomacia da União Europeia (UE), Kaja Kallas, afirmou esta quinta-feira que o bloco não depende do petróleo dos países do Golfo para o seu abastecimento energético, pelo que não há motivos entrar em pânico com eventuais disrupções.
Também em Portugal os ânimos foram serenados. A ENSE – Entidade Nacional para o Setor Energético afirmou que “Portugal dispõe de reservas (cerca de 93 dias de consumo) para fazer face a um cenário de disrupção no normal funcionamento do país”, sublinhando ainda que as importações portuguesas não têm exposição ao Estreito de Ormuz “nas quantidades de mercadorias adquiridas e transportadas para o território nacional”.
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Quanto podem subir os preços dos combustíveis em Portugal?
A verdade é que nem a Europa, nem Portugal se livram de impactos em alta nos preços dos combustíveis. A Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança reconheceu que “quando os preços de mercado aumentam, isso tem impactos mais vastos, mas por enquanto ainda não estamos a assistir isso. Por isso, não há motivos para entrar em pânico”, afirmou Kaja Kallas.
Já o secretário-geral da EPCOL, António Comprido, admite que o aumento dos preços de venda dos combustíveis ao público estará para breve. “Se se mantiver esta alta de preços ao longo desta semana, e infelizmente os acontecimentos no Irão não anteveem nada de bom, inevitavelmente isso vai-se repercutir depois nos preços de venda ao público em Portugal”, disse, sublinhando que o efeito será sentido “em Portugal e no resto do mundo”.
Ao que tudo indica, tendo por base os valores dos mercados desta quinta-feira (5 de maço), a previsão do aumento dos preços combustíveis em Portugal na próxima semana será de mais 20 cêntimos no gasóleo, e de mais 6 cêntimos na gasolina, refere o Contas Poupança.
O Governo da AD também reconhece essa possibilidade de aumento dos preços dos combustíveis. “Dentro da orientação que foi dada a vários membros do Governo para não desvalorizarem os efeitos que o conflito [com o Irão] possa ter na nossa dinâmica económica, estamos em condições de dizer que um desses efeitos pode vir a ser o aumento do preço dos combustíveis”, apontou Luís Montenegro, primeiro-ministro.
Neste sentido, o primeiro-ministro admitiu que o Executivo poderá avançar com um desconto extraordinário e temporário do ISP para compensar uma subida dos combustíveis caso se verifique um aumento de 10 cêntimos face ao valor desta semana. “Por esta forma, devolve-se todo esse adicional às portuguesas e aos portugueses e às empresas”, apontou Montenegro.
Além disso, também há a possibilidade de este conflito no Irão agravar os custos de transportes e fretes no nosso país. “É natural que os fretes também aumentem, porque os combustíveis para os navios também vão aumentar. Portanto, tudo isto é um bocadinho em cascata”, explicou o responsável EPCOL, acrescentando que as perspetivas “não são muito positivas” do ponto de vista da economia e dos consumidores, que deverão “sentir quase de certeza no bolso um agravamento dos preços”.
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Subida dos juros no crédito habitação só se o conflito no Irão se prolongar
Os eventuais efeitos na carteira das famílias desta nova guerra no Médio Oriente podem mesmo não ficar por aqui, se o conflito se prolongar no tempo. “Este conflito, se vier a prolongar-se, poderá obviamente afetar os preços mundiais da energia, o sentimento dos mercados e a inflação“, afirmou Kristalina Georgieva, diretora-geral do FMI, que considera que a economia mundial está “novamente a ser posta à prova”.
Também António Costa, presidente do Conselho Europeu, considerou que “a guerra no Irão revelou um novo nível de instabilidade e disrupção da ordem internacional”, sublinhando a importância de tornar a Europa mais competitiva e autónoma em termos energéticos, cita o Público.
Uma eventual subida persistente dos preços da energia poderá inflacionar muito os custos dos alimentos (por via do transporte e produção) e os juros no crédito habitação (por via do aumento de taxas pelo BCE), tal como aconteceu logo após o início da Guerra na Ucrânia em 2022. Tudo se pode voltar a repetir, mas só se o conflito se alongar mais do que o esperado.
“O cenário base é que será um conflito curto e o outro é que seja mais longo, mais prolongado do que esperávamos”, explicou Luis de Guindos, vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), precisando que o regulador prestará atenção ao definir a sua política monetária à evolução dos preços e à possível mudança nas expectativas de inflação, que associou em particular à duração do conflito. Mas, para já, a reação dos mercados à guerra tem sido “ordenada”, com uma valorização do dólar e ligeira subida dos juros dos títulos soberanos.
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A boa notícia é que o BCE, ao ter mantido os juros inalterados em 2% na última reunião, continua numa “boa posição” para enfrentar choques futuros na inflação. A atas da reunião de fevereiro revelam que o supervisor liderado por Christine Lagarde considerou que a incerteza comercial “poderia justificar deixar inalteradas as taxas” e esperar para ver como evoluíam alguns riscos, nomeadamente na subida dos preços da energia. Essa posição cautelosa deverá ser mantida na próxima reunião de política monetária de 19 de março.
Em Portugal, há já quem antecipe os piores cenários possíveis, de aumento do preços dos alimentos e dos juros no crédito habitação. O líder do PS, José Luís Carneiro, já instou o Governo a atuar preventivamente nestes pontos em vez de remediar os impactos que já são previsíveis do conflito. Mas Montenegro manteve uma postura cautelosa ao dizer que “este tempo exige sentido de responsabilidade, de Estado, de ponderação e de equilíbrio”, sendo preciso “aguardar o desenrolar dos acontecimentos para tomar as medidas mais apropriadas”, cita o Expresso.
*Com Lusa



