Notícias

17 Abr

Construir casa: porque já não basta só desenhar paredes?

Durante muito tempo, a arquitetura foi pensada a partir da construção. Primeiro vinha a estrutura, depois a organização do interior, mais tarde os acabamentos e, no fim, se sobrasse espaço, orçamento e atenção, chegava o exterior. O paisagismo era muitas vezes tratado como um complemento. O design de interiores surgia como uma camada posterior. E o 3D servia sobretudo para apresentar uma ideia ao cliente.

Hoje, quem projeta, compra, vende ou habita uma casa já não olha apenas para paredes, áreas e materiais. Olha para a experiência completa. Quer perceber como se vive naquele espaço, como entra a luz, como o interior se relaciona com o exterior, como o jardim prolonga a casa, como o ambiente influencia o bem-estar e até como a tecnologia ajuda a antecipar, com rigor, aquilo que vai ser construído. Essa leitura é cada vez mais partilhada por arquitetos, designers e até pelo próprio mercado imobiliário, tal como confirmou o idealista/news junto de especialistas.

arquitetura

QVVV-MASTERPLAN / Artspazios

Na visão de André Oliveira e Liliana Costa, arquitetos fundadores da Aerspazios, resumem essa mudança de paradigma: “Olhamos para o espaço como um todo, vivo, onde arquitetura, interior e paisagem não são disciplinas isoladas, mas camadas interligadas de uma mesma experiência.” Mais do que desenhar um edifício, o objetivo passa a ser desenhar uma relação entre corpo, espaço, luz, matéria e natureza.

E isto já não é “algo exclusivo de projetos de luxo”, acrescenta Sónia Aguiar, arquiteta fundadora da LCAS-Studio. “Está cada vez mais presente em diferentes escalas e tipologias, desde habitação privada a espaços coletivos. Ainda assim, um bom desenho de paisagismo continua a transmitir uma forte sensação de qualidade, conforto e bem-estar, muitas vezes associada a uma ideia de luxo, não necessariamente pelo custo, mas pela experiência que proporciona. Mais do que um extra, o paisagismo é hoje uma componente essencial para qualificar o projeto e melhorar a forma como os espaços são vividos.”

O paisagismo já não chega no fim da obra

Se estás a pensar construir, comprar ou remodelar casa, há uma ideia que importa reter: o paisagismo deixou de ser uma espécie de cereja no topo do bolo. Hoje, entra cada vez mais cedo no processo e tem impacto real na forma como o espaço é vivido.

“Vemos o paisagismo como uma extensão direta da experiência humana no espaço, quase como uma segunda pele da arquitetura. Não se trata apenas de desenhar jardins, mas de desenhar sensações, ritmos e estados emocionais”, explicam os arquitetos da Artspazios. A frase ajuda a perceber que o exterior já não é apenas um enquadramento visual.

A mesma ideia surge noutra linguagem, mais técnica, com o arquiteto Miguel Ibraim Rocha, líder da UNUM Arquitectura. Para ele, “o paisagismo, entendido no seu sentido mais amplo, deixou de ser uma disciplina complementar para assumir um papel estruturante na construção da cidade contemporânea”. E isso significa que já não falamos só de canteiros, relvados ou árvores. Falamos de “desenhar sistemas vivos que articulam solo, água, clima e uso humano”.

arquitetura

MJARC Arquitectos

Também a arquiteta Maria João Andrade sublinha essa mudança. “O paisagismo assume hoje um papel central nas novas construções, deixando de ser um elemento meramente decorativo para se afirmar como uma componente essencial do projeto”, afirma. E acrescenta que os espaços verdes contribuem para “a humidade, a temperatura do ar, a insolação, o ruído e a qualidade do ar, criando ambientes mais equilibrados e confortáveis”.

No mercado, essa transformação também já é visível. Ivo Sousa, consultor imobiliário especializado na valorização do imóvel, explica: “hoje o paisagismo deixou claramente de ser um ‘extra’ e passou a ser uma parte fundamental de como se vive! Depois do COVID este ponto passou a ser preponderante.” E explica porquê: “o exterior passou a ser uma extensão da casa, não é só o jardim é o jardim onde se vive, se trabalha e se recebe.”

A frase capta bem aquilo que mudou nos últimos anos. O espaço exterior deixou de ser apenas decorativo para passar a ser funcional. Um terraço já não é só uma mais-valia. Pode ser zona de refeição, refúgio, escritório improvisado, lugar de encontro ou simples extensão da sala. Um jardim já não é apenas agradável à vista: é parte do quotidiano.

Mais verde, mais saúde e mais segurança

Falar de paisagismo é, hoje, falar também de saúde pública, de conforto térmico e de adaptação climática. E essa é talvez uma das mudanças mais importantes em curso. Miguel Ibraim Rocha é claro neste ponto ao dizer que o desenho da paisagem tem “impacto direto na segurança urbana, pela forma como organiza visibilidades, fluxos e apropriação do espaço, na saúde pública, ao promover conforto térmico, qualidade do ar e bem-estar psicológico e na resiliência climática, através de soluções como drenagem natural, retenção de águas pluviais, sombreamento e mitigação das ilhas de calor”.

Paisagismo

Junta de Freguesia de Alfena

UNUM Arquitectura

Maria João Andrade vai na mesma direção e lembra que, em contexto urbano, os espaços verdes “desempenham um papel determinante na mitigação dos efeitos das alterações climáticas”. A arquiteta refere ainda que parques e jardins podem registar temperaturas “entre 5 ºC e 10 ºC inferiores” face a zonas densamente construídas. Além disso, funcionam como espaços de “encontro, lazer e reconexão com a natureza”.

A dimensão emocional e humana desta questão surge também na resposta de André Oliveira e Liliana Costa, da Artspazios. “A presença de natureza reduz níveis de stress, melhora a concentração, regula o humor, promove bem-estar físico e mental”, afirmam. E acrescentam: “Projetar paisagem é, por isso, projetar estados emocionais. É criar espaços que acalmam, que inspiram, que reconectam.”

Esta ligação entre espaço e bem-estar é reforçada por Maria João Correia, da Segmento Urbano, que lembra: “Estudos recentes mostram que o espaço tem muita influência na forma como as pessoas se sentem.” E continua: “para todos sermos mais felizes e mais saudáveis fisicamente e mentalmente. E a arquitetura tem um enorme papel nisso.”

É uma ideia simples, mas poderosa: a forma como desenhamos as casas, os jardins, os pátios, os logradouros, as praças ou as ruas influencia diretamente a qualidade de vida. E, num tempo em que as cidades enfrentam mais calor, mais impermeabilização dos solos e maior pressão sobre o espaço urbano, essa consciência torna-se ainda mais urgente.

arquitetura

Getty images

Já não é um “extra”: é uma expectativa

Atualmente já se não procura apenas um imóvel funcional ou visualmente apelativo. Procura-se uma experiência completa. Procura-se coerência. Procura-se sentir que o espaço foi pensado como um todo. “Diríamos que já não é um ‘extra’, é uma expectativa”, afirmam André Oliveira e Liliana Costa. “O cliente de hoje procura mais do que um edifício, procura uma experiência completa. Quer viver o exterior tanto quanto o interior, quer continuidade, fluidez, identidade.” 

Essa lógica é partilhada por Maria João Andrade, para quem o paisagismo deve ser entendido como “uma dimensão estruturante do projeto de arquitetura”” A sua integração desde o início permite “uma melhor adaptação ao contexto envolvente e uma maior qualidade de vida para os utilizadores”.

Também Miguel Ibraim Rocha insiste que a visão antiga está ultrapassada: “Durante muitos anos, o paisagismo foi encarado como um ‘acréscimo’ ao projeto, algo que se fazia no fim, muitas vezes com orçamento residual”. Hoje, acrescenta, um espaço exterior bem desenhado “aumenta o valor económico do ativo, reforça a identidade do lugar e contribui para a sua diferenciação”.

Ivo Sousa traduz essa mudança para a linguagem do mercado e da perceção do comprador. “Em zonas como Aroeira, por exemplo, o que antes era valorizado pela localização, hoje é valorizado pela experiência completa: luz, natureza, privacidade e fluidez entre interior e exterior.” E conclui com uma frase muito reveladora: “Quem compra já não quer apenas uma casa bonita, quer sentir que está a melhorar o nível de vida.”

arquitetura

Hero / Segmento Urbano

Soluções “chave na mão”: mais coerência

Esta procura por continuidade também ajuda a explicar porque é que as soluções “chave na mão” estão a ganhar terreno no mercado. Do lado do comprador, Ivo Sousa aponta uma razão muito concreta para o sucesso destas soluções: a dificuldade de imaginar. “A maioria das pessoas tem dificuldade em imaginar o potencial de um espaço vazio. Uma casa sem decoração pode parecer mais pequena, mais fria ou até menos funcional”, explica. Já quando o espaço está bem desenhado, “parece maior, mais luminoso e, acima de tudo, torna-se emocionalmente mais apelativo”.

Maria João Andrade também vê nesta abordagem uma tendência consolidada, sobretudo nos segmentos mais exigentes. Segundo a arquiteta, os clientes valorizam “propostas integradas, nas quais arquitetura, design de interiores e, muitas vezes, paisagismo são concebidos de forma articulada desde o início”. Esta abordagem permite “desenvolver projetos com uma identidade clara e consistente”, ao mesmo tempo que torna a experiência do cliente “mais fluída, transparente e controlada”.

Esta integração passa por fazer dialogar arquitetura, interiores, materiais, iluminação e até o desenho de peças específicas. “Os objetos não são acessórios, são continuidade da arquitetura. São extensões da linguagem do espaço”, defendem os arquitetos da Artspazios.

Sónia Aguiar alerta para a importância de distinguir design de interiores de decoração. “O design de interiores faz parte da conceção do espaço, da sua funcionalidade e identidade, enquanto a decoração surge como uma camada complementar, mais associada à personalização e ao detalhe.”

arquitetura

Estudo de reconversão – simulação 3D / KLife

3D passou a ser uma ferramenta de projeto

A terceira grande mudança está no modo como a arquitetura é comunicada e testada. Hoje, o 3D deixou é uma ferramenta central de projeto, de comunicação e de decisão. Maria João Andrade reforça que o 3D “transformou profundamente a forma como comunicamos arquitetura, tornando possível antecipar o projeto com um nível de precisão e clareza sem precedentes”. Mais do que representar, permite “explorar soluções, testar ambientes e aproximar o cliente da realidade futura do espaço”. E deixa o alerta: “as imagens 3D devem ser fiéis e transparentes, evitando criar expectativas irreais ou idealizadas”. 

“A inteligência artificial simula o pensamento mas o pensamento humano dá-lhe sentido” acrescentam os arquitectos da Artspazios.. “O 3D aliado ao vídeo e à inteligência artificial, não é apenas uma ferramenta de representação, é uma extensão do próprio pensamento arquitetónico.” 

A arquiteta da LCAS-Studio reforça a ideia de que “existe uma limitação evidente nos desenhos tradicionais, sejam eles 2D ou mesmo 3D estático, que acabam por representar apenas uma perspetiva. Com a realidade virtual, essa limitação é ultrapassada: o cliente pode “caminhar” pelo espaço, explorar diferentes pontos de vista e imaginar-se efetivamente a viver no ambiente projetado.”

Mas talvez um dos aspetos mais interessantes seja a relação entre o espaço e o styling, exposta por Ivo Santos: “Quando uma casa está mobilada, muitas pessoas acabam por avaliar o espaço com base no que estão a ver naquele momento”, explica. E isso pode ser um problema, porque julgam a casa “pelo styling atual e não pelo seu potencial”. Segundo o consultor, esta tecnologia permite ao cliente “entrar” na casa antes de a visitar, o que “reduz erros, acelera decisões e aumenta confiança“.

Publicações Relacionadas