
Como usar as cores “aprovadas” pela natureza na decoração da tua casa
Tens dois cartões de cor na mão, um azul intenso e um terracota quente, e acreditas que juntos vão dar um desastre. Pousas os dois, escolhes o branco de sempre e segues em frente.
O que talvez não tenhas reparado é que essa exata combinação, a que acabaste de descartar, existe a três passos da tua janela: é o céu a tocar numa encosta de rocha vermelha, e ninguém nunca achou que desentoava.
A frase anda por aí: “Se a natureza combina, combina”. É das verdades mais úteis que se podem dizer sobre decoração, a natureza é a colorista mais antiga e mais destemida. “A cor é muito mais do que uma escolha estética. Cientificamente, o cérebro processa a cor em áreas ligadas à emoção, à atenção e à memória, influenciando a forma como nos sentimos e até como nos comportamos num espaço. Depois de uma longa era dominada pelos neutros, a cor e o padrão voltaram. Para quem tem receio de os usar, o melhor conselho é observar a natureza: nela coexistem infinitas cores, texturas e padrões em perfeita harmonia”, resume Gracinha Viterbo, referência na área da decoração.
Este artigo é sobre essa coragem. Sobre olhares para uma paisagem como quem olha para um catálogo de combinações já testadas, e trazeres essas combinações para dentro de portas.
Porque é que temos medo da cor
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O branco tomou conta das casas portuguesas por uma razão simples: é seguro. Não erra, não cansa, revende-se bem, deixa o espaço parecer maior. “Criou-se a ideia de que os ambientes mais descoloridos, os chamados neutros, eram mais apetecíveis, por tendência e porque a cor começou a ter conotações de algo mais barato, de menos qualidade. Tudo o que era com menos cor ganhou um ar mais sofisticado, mais luxuoso”, explica Sissi Louro Santos, arquiteta especializada em decoração e fundadora da Escola da Cor.
O receio da cor nasce da ideia de que combinar tons é um dom misterioso, reservado a especialistas. Mas, na maioria das vezes, é mais simples do que parece: em vez de inventares a tua paleta do zero, podes copiar combinações que já existem e já provaram que funcionam.
Como usar a paisagem para transformar uma divisão

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Se a ideia te entusiasma mas não sabes por onde começar, escolhe uma divisão de passagem ou de uso curto. A casa de banho é talvez o melhor laboratório de todos. É pequena, fecha-se e uma lata de tinta chega para a pintar inteira.
A paisagem já te dá esta proporção feita. Repara numa fotografia de um vale com nevoeiro: o cinza-esverdeado domina, o verde da vegetação aparece em segundo plano, e há sempre um apontamento mais escuro ou mais quente que salta à vista. A natureza não distribui as cores em partes iguais.
Escolhes uma imagem de que gostes mesmo, não por estar na moda, mas porque te diz alguma coisa.
Identificas as cores principais, normalmente entre quatro e seis.
Distribuis essas cores pela regra dos 60, 30 e 10. Sessenta por cento do espaço fica com a cor dominante, quase sempre a mais neutra da paleta: paredes, chão, os grandes panos. Trinta por cento vai para uma cor secundária, que aparece nos têxteis, num móvel grande, nas cortinas. Os últimos dez por cento são reservados aos pormenores.
Cinco paletas para “roubar” à natureza

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- Glaciar: azul-gelo dominante, verde-musgo, cinza-pedra e um toque de ocre. Serena e fresca, ideal para quartos virados a norte.
- Quebrada de rocha vermelha: terracota e taupe em baixo, azul-cobalto como acento. Quente e gráfica, boa para salas de jantar.
- Prado florido: verde-azeitona, amarelo-mostarda, púrpura e rosa-pálido. Alegre sem ser infantil, perfeita para um escritório ou uma zona de leitura.
- Pôr do sol sobre a água: pêssego, coral, telha e castanho-escuro. Acolhedora, pensada para salas onde se vive à noite.
- Montanha nevada ao amanhecer: rosa-poeira, cinza-quente e branco-sujo. Suave, excelente para um quarto de casal.
A paisagem portuguesa tem as melhores paletas

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Portugal é uma carta de cores, e cada região traz a sua. “Adoro inspirar-me na Natureza, seja na conjugação das cores dos corais debaixo de água ou nas paisagens secas de verão no Alentejo, com a variedade de cores, amarelos, ocres e azul do céu. Às vezes basta olhar para um pôr do sol e ali está um mood board perfeito, mas não é só nas paisagens que a natureza inspira, é nos detalhes, formas e texturas também”, explica Gracinha Viterbo.
O Alentejo, ao fim da tarde, é trigo seco, sobreiro descascado e o castanho-avermelhado da terra lavrada, com o branco das casas a cortar tudo. Dá uma sala quente, de luz baixa, que pede madeira e linho.
O Gerês com verdes profundos, o cinza molhado do granito e o castanho da água das cascatas. Funciona em divisões onde queres calma, um escritório ou um quarto.
A ria de Aveiro dá-te o azul-acinzentado da água parada, o branco e o ferrugem dos barcos moliceiros, o verde-claro dos juncos.
As vinhas do Douro no outono são um espetáculo de ocres, vermelhos e dourados em socalcos, uma paleta cheia que resulta melhor em apontamentos do que em paredes inteiras.
E a serra da Estrela no inverno é o tal cenário de neve: branco-sujo, cinza-pedra e o verde escuro dos pinheiros, suave e abraçado.
Tintas portuguesas para dares o primeiro passo
Não precisas de ir longe para encontrar estas cores. As marcas que tens à mão em qualquer loja do país já trazem paletas inteiras inspiradas na paisagem.
- Robbialac: terracotas e verdes amadeirados na gama Mate Premium que assentam bem em salas e corredores.
- CIN: nas tintas de interior, trabalha tons de pedra, areia e azul-acinzentado fáceis de combinar entre si.
- Barbot: carta de cor extensa, com ocres e verdes-musgo que parecem tirados de um pinhal do Gerês.
- Dyrup: na linha de interior, aposta em tons suaves e terrosos que dão à divisão um ar calmo sem cair no bege de sempre.
Em qualquer uma destas marcas podes pedir amostras pequenas, os chamados testers, por poucos euros. Compra dois ou três, pinta cartões A4, espalha-os pela divisão e vive com eles uns dias. É o passo que separa uma escolha acertada de um arrependimento caro.
Em resumo, 4 passos para começar hoje

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- Escolhe a fotografia: uma paisagem de que gostes mesmo, não a que está na moda.
- Escolhe quatro a seis cores: a dominante, uma ou duas secundárias e a de acento.
- Aplica a regra dos 60, 30 e 10: dominante nas paredes e chão, secundária nos têxteis, acento nos pormenores.
- Testa antes de pintar: cartões grandes, vistos a horas diferentes do dia.