BCE avisa: subida de juros em junho é “praticamente inevitável”
O Banco Central Europeu (BCE) começou a preparar terreno para uma subida das taxas de juro. Depois de manter o preço do dinheiro nos 2% na reunião de 30 de abril, várias vozes dentro da instituição – o chamado “guardião do euro” – já avisam os mercados de que há uma forte probabilidade de o próximo encontro da autoridade monetária trazer um agravamento do custo do crédito. Para países como Portugal, onde a maioria dos empréstimos à habitação está indexada à Euribor, uma subida das taxas do BCE traduz‑se rapidamente em prestações mais pesadas para as famílias.
A próxima reunião do Conselho do BCE está marcada para 11 de junho e, segundo o governador do banco central da Eslováquia, Peter Kazimir, é “praticamente inevitável” que nessa data as taxas sejam aumentadas, num contexto marcado pela crise no Médio Oriente e por expectativas de inflação em alta no curto prazo.
A decisão deverá coincidir com a publicação das novas projeções macroeconómicas do BCE – atualizadas trimestralmente – e com o fecho do primeiro ano completo com o preço do dinheiro estacionado nos 2%.
“Não seguimos um caminho pré‑definido, mas mantemos uma postura firme. Por isso, o endurecimento da política monetária em junho é praticamente inevitável”, afirmou Kazimir num comentário divulgado pelo Banco Nacional da Eslováquia.
O responsável eslovaco defende que, nas próximas semanas, o BCE terá de analisar cuidadosamente os dados disponíveis para avaliar a duração e o alcance dos efeitos do conflito no Médio Oriente sobre a economia. E não tem dúvidas de que a pressão inflacionista no mercado da energia acabará por se espalhar ao resto da economia.
Kazimir aponta o conflito como principal motor da pressão inflacionista de curto prazo, mas nota que, para já, as previsões de inflação a longo prazo ainda não foram revistas em alta. Lembra também que o endurecimento da política monetária já fazia parte do “plano inicial” traçado em março e que, “infelizmente”, os acontecimentos não correram de forma “agradavelmente surpreendente”.
O governador alerta ainda para o risco de respostas governamentais “mal desenhadas” à crise energética, que podem alimentar ainda mais a subida de preços, e prevê que as cadeias de abastecimento continuem sob pressão.
“As nossas projeções de junho vão dizer‑nos até que ponto nos afastámos do ponto de partida de março, que tipos de risco enfrentamos num cenário mais adverso e, claro, o que isso significa para a nossa política”, conclui Kazimir
Outros membros do BCE também admitem subidas de juros
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As declarações de Kazimir alinham‑se com as da própria presidente do BCE, Christine Lagarde, que já deixou a porta entreaberta para um aumento das taxas em junho, na conferência de imprensa após a última reunião do Conselho de Governo.
A responsável francesa admitiu que, “em termos de direção, sei para onde vamos”, mas sublinhou que o BCE se encontra numa posição relativamente confortável, o que lhe permite esperar até junho para ter mais dados na mão e confirmar o ponto em que se encontra a economia da zona euro.
O governador do Banco de França, François Villeroy de Galhau, também sugeriu essa possibilidade. Defende que a política monetária deve ser “prudente e vigilante” num cenário de crescimento mais fraco e inflação em alta, e considera que o BCE tem de estar preparado para agir sem hesitação e travar a propagação da subida dos preços da energia por via de efeitos indiretos – mas “apenas depois de recolher informação suficiente sobre esses riscos”.
Por seu lado, o vice‑presidente do BCE, Luis de Guindos, cujo mandato termina em maio, insiste na importância de “manter a cabeça fria” e agir em função dos dados que forem surgindo até à reunião de junho.
“Numa situação geopolítica tão complexa, é fundamental ter a cabeça fria e decidir com base nos dados, reunião após reunião”, disse o espanhol a 4 de maio, no Parlamento Europeu, evitando comprometer‑se quanto ao sentido do seu voto: “Teremos de esperar até junho.”
Mercados também apontam para junho
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Os mercados financeiros já descontam três subidas das taxas diretoras até ao final do ano – chegou a falar‑se em quatro –, com o primeiro movimento esperado precisamente em junho.
É também esse o cenário traçado por Juan Villén, diretor‑geral do idealista/crédito habitação, que considera provável que “nos próximos meses a inflação volte a acelerar – ou, pelo menos, se mantenha nos níveis elevados atuais – o que deverá levar o BCE a mexer nas taxas em junho, mesmo que apenas em 0,25 pontos percentuais”.
Villén admite que o BCE possa estar a apostar num “choque inflacionista temporário”, que se dissipe com uma eventual resolução da crise no Médio Oriente e com uma procura interna fraca, capaz de travar uma escalada prolongada dos preços. Ainda assim, deixa um aviso: “Veremos o que acontece, mas parece certo que os consumidores voltarão a ver o seu poder de compra a encolher”.
O Bank of America também espera uma subida das taxas em junho e antecipa outro aumento ainda este ano. Já o CaixaBank fala em duas a três subidas nas cinco reuniões que faltam até dezembro, o que aumenta a probabilidade de uma mudança de rumo já antes do verão.
Nem todos partilham, porém, este cenário mais agressivo. Casas como a Renta 4 ou a JP Morgan AM consideram que o mercado poderá estar a exagerar nas expectativas de aperto monetário e antecipam menos subidas, tudo dependendo da evolução da guerra no Médio Oriente e do seu impacto na inflação e na economia da zona euro.
Para os portugueses com empréstimos indexados às Euribor – a larga maioria dos créditos habitação – estas decisões em Frankfurt não são abstratas: cada décima de ponto nas taxas do BCE acaba por chegar à prestação mensal, num contexto em que o custo de vida continua sob pressão.

