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09 Fev

Altos preços das casas comprometem qualidade de vida das cidades

O índice de habitabilidade de uma cidade vai muito mais além de uma questão de estética urbana ou de serviços disponíveis. Envolve fatores como a segurança, a saúde, a educação, o ambiente, os transportes e, acima de tudo, habitação acessível. Nos últimos anos, muitas cidades do globo têm enfrentado uma crescente pressão sobre o custo de vida, com os preços das casas a disparar e a tornar o acesso a habitação própria permanente um desafio cada vez maior e chega a comprometer a qualidade de vida das cidades. 

As cidades médias, conseguem equilibrar a balança das infraestruturas, proximidade a serviços – hospitais, bancos, centros de saúde – e qualidade de vida, enquanto as grandes metrópoles sofrem com congestionamento, criminalidade e sobrecarga dos serviços públicos. Ainda assim, viver numa cidade não se resume a ter infraestruturas eficientes. Existem problemas estruturais ligados à habitação e ao planeamento urbano que é necessário resolver. Mas o que significa realmente o índice de habitabilidade e onde Lisboa se insere neste ranking?

O Índice Global de Habitabilidade 2025 (Global Liveability Index 2025) desenvolvido pelo Economist Intelligence Unit (EIU) e apresentado por Emily Mansfield, Diretora Regional para a Europa da EIU, esta quinta-feira, dia 5 de fevereiro, no evento “Observatório Imobiliário da Century 21”, na Meo Arena, em Lisboa, ajuda a responder a esta pergunta. Em causa está a avaliação de 173 cidades em todo o mundo com base em 30 indicadores distribuídos por seis categorias: estabilidade, saúde, educação, meio ambiente, cultura e infraestruturas. 

Copenhaga, na Dinamarca, conquistou o primeiro lugar no estudo da EIU, pondo fim ao domínio de Viena, na Áustria, que durava há três anos. A capital da Dinamarca obteve a pontuação máxima de 100 em estabilidade, educação e infraestruturas, subindo da segunda posição para se tornar a cidade mais confortável do mundo para se viver.

Viena, na Áustria, está agora empatada em segundo lugar com Zurique, na Suíça, e viu a sua pontuação de estabilidade cair drasticamente após os alertas de terrorismo em 2024 e no início de 2025, embora tenha mantido pontuações perfeitas nas áreas da saúde, educação e infraestruturas. Segundo Emily, “de forma geral, as cidades da Europa Ocidental têm bons resultados, sobretudo na saúde, educação e infraestruturas. Ainda assim, nos últimos anos, houve alguma quebra na pontuação da estabilidade, influenciada por fatores como terrorismo, tensões geopolíticas e maior polarização política”, apontou. 

Global Liveability Index 2025

Fonte: The Economist Intelligence Unit

Mas onde se insere Lisboa neste cenário? A capital portuguesa surge na 60ª posição, ligeiramente abaixo de Londres e Madrid, mas à frente de cidades como Roma e Nova Iorque. Destaca-se sobretudo na cultura, no ambiente e na qualidade de vida, além de ter bons resultados em estabilidade e educação. No entanto, há um tema que não podemos ignorar: o acesso à habitação

Uma semana depois de Carlos Moedas ter pedido a Bruxelas um Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) exclusivo para habitação, durante uma conferência com o comissário europeu Dan Jørgensen, Emily Mansfield, mediadora do painel “Economist Impact Capsule”, recorreu a um indicador interno, chamado “Índice Carrie Bradshaw” – uma referência à personagem de “Sexo e a Cidade, que vivia em Nova Iorque com um estilo de vida pouco realista para o seu salário.

Este índice compara o salário médio com o custo de arrendar um T1, assumindo que a renda não deve ultrapassar 30% do rendimento. Em cidades como Lisboa, o salário médio anual ronda os 26.000 euros, de acordo com o mesmo estudo, para viver confortavelmente e uma pessoa conseguir comprar uma casa na capital portuguesa, seria necessário ganhar praticamente o dobro.

Habitação na Europa: a visão dos especialistas

Painel de debate

Jaime Luque, Membro do Conselho Consultivo para a Habitação, Comissão Europeia, Maria Elsinga, Professora na Universidade Técnica de Delft, Andreas Michelsen, Diretor, Gehl People e Tanguy Desrousseaux, Diretor de Habitação, Departamento de Cidades e Reg

Créditos: Gonçalo Lopes | idealista/news

O desafio da habitação acessível não é apenas uma questão social, mas também económica e de competitividade, alertou Jaime Luque, membro do conselho consultivo para a habitação, na Comissão Europeia (CE). “O maior problema que enfrentamos hoje é a dificuldade em atrair capital à escala necessária. A habitação é um setor estruturalmente lento: a oferta demora a responder, é pouco elástica, e isso cria um enorme desfasamento face à procura”, explicou. 

Em Portugal, como noutros países europeus, é preciso mobilizar investimento de longo prazo, criando instrumentos financeiros e regulatórios que tornem a habitação acessível atrativa para investidores, sem comprometer a estabilidade do mercado. Existem milhares de milhões de euros em poupanças europeias que poderiam ser canalizados para este setor, gerando retornos estáveis de 6% a 8% ao ano, um cenário que poderia transformar o panorama habitacional em Lisboa e noutras cidades, sublinhou o membro do conselho consultivo para a habitação. 

A complexidade do problema é também estrutural. Andreas Michelsen, Diretor, Gehl People e especialista em planeamento urbano, lembrou que “temos cidades lindíssimas, um parque habitacional antigo e muito património histórico. São cidades consolidadas e isso cria um verdadeiro dilema: como conciliar a vida moderna e as exigências atuais com estruturas pensadas para outra época?”. Em muitas cidades europeias, e Lisboa não é exceção, a resposta imediata tem sido recorrer a soluções rápidas, como as casas pré-fabricadas e casas modulares, para cumprir metas de construção, mas nem sempre estas garantem qualidade de vida a longo prazo. Para Andreas Michelsen, “investir no que já existe – reabilitar, adaptar e melhorar o edificado – acaba por ser uma proposta mais inteligente do ponto de vista económico, mais competitiva e melhor para a qualidade de vida nas cidades”.

Outro ponto central destacado no debate é a relação entre oferta de habitação e competitividade económica. Tanguy Desrousseaux, Diretor de Habitação, Departamento de Cidades e Regiões, Banco Europeu de Investimento, explica que “quando os estudantes, os jovens profissionais ou os trabalhadores – enfermeiros e professores – não conseguem encontrar casa nas áreas urbanas, as cidades perdem competitividade e o problema deixa de ser apenas social para se tornar também económico”.

Para aliviar este cenário de crise na habitação, os especialistas defendem soluções integradas em incentivos fiscais, fundos de investimento pan-europeus em habitação e reabilitação do parque habitacional existente. Jaime Luque reforçou que “é possível canalizar mais capital para o mercado imobiliário, aumentar a oferta e, como sabemos, mais oferta tende a baixar os preços – é exatamente o que queremos”. 

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